André Marques, o próprio.

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terça-feira, 25 de março de 2014

O prazer do silêncio

Admiro o silêncio. Considero-o um bom amigo. Presente. Fiel. Admiro as palavras ditas no calor de um olhar. Confesso-me ao silêncio, e absorvo a paz, o maior fruto. Porque o melhor da vida faz-se entre dois corpos silenciados pelo sentimento do prazer.

Fica só um minuto

Fica quieto. Dá-me só a mão. Fecha os olhos. E sente-me por inteiro. Não estranhes, acredita. Como se fossemos um só. Como se fossemos não! Somos mesmo. Eu e tu. Um agora que é todo o sempre.

Vida de sorrisos

Bebo da deceção. Do desengano. E deixo-me absorver. Engulo a vida miserável. Esta que me acolhe diariamente. Que aos poucos acaba com tudo. Comigo. Contudo, enlevo a ventura. Os segundos. Os minutos. As horas. Porque a felicidade é instantânea. Porque a felicidade prolonga a vida e provoca gargalhadas estúpidas. Como eu admiro sorrisos rasgados! E por um momento, sou feliz uma vida inteira.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Bardoada - O Grupo do Sarrafo



    Mil novecentos e noventa e sete. Um ano comum. De trezentos e sessenta e cinco dias. Cinquenta e duas semanas. Quarta-feira. Quarta-feira. O início. E o fim. Evidente. O ano do funeral de Diana, Princesa de Gales. O ano da morte de Madre Teresa de Calcutá.
    O ano dos Bardoada – O Grupo do Sarrafo. Oriundos da vila de Pinhal Novo, os Bardoada manifestam-se ao mundo através da Percussão, dos fantasiosos Gigantones, e das Gaita-de-Foles. E ainda são quarenta elementos. Os bastantes. Os jovens suficientes, reunidos numa só imaginação rítmica popular. Com os sorrisos todos. E os sonhos. Cada vez mais reais. A saltar-lhes do coração.
Instrumentos como Bombos, Timbalões, e Caixas, completam as atuações com adrenalina, boa energia, e grandes momentos de interação com o público.
    Ao longo dos tempos, o Grupo tem realizado diversas colaborações um pouco por todo o país, nomeadamente em desfiles, corso e espetáculos. Contabilizam cerca de quarenta atuações por ano. Facto curioso. Por outro lado, além de todas as atividades referidas, os Bardoada têm colocado em evidente ascensão alguns projetos paralelos ao percurso artístico, como por exemplo o caso da construção de         Gigantones que oferecem as mãos ao grupo nas mais variadas intervenções públicas. Com o apoio da   Câmara Municipal de Palmela, obviamente. E do Rancho Folclórico Casa do Povo, Pinhal Novo, que cede o espaço para a divulgação de ações de formação de Gaita-de-Foles.
    Os Bardoada a fazer sonhar. Hoje e sempre. Porque o sucesso conquista-se com dedicação, união, e, indubitavelmente, empenho. O futuro é dos que acreditam. E os Bardoada acreditam.




quinta-feira, 6 de março de 2014

Crónica de um bom Pai



    Mil novecentos e sessenta. Ano bissexto. Trezentos e sessenta e seis dias. Cinquenta e duas semanas. Sexta e sábado, respetivamente. O início. E o fim. Facto evidente. O ano mundial dos asilados. O ano de Ayrton Senna. O ano de Renato Russo, vocalista e instituidor da banda de rock Legião Urbana.
Estátuas e cofres/ E paredes pintadas/ Ninguém sabe o que aconteceu/ Ela se jogou da janela do quinto andar/ Nada é fácil de entender.
    O ano de Jorge Quiroga. E do meu pai. Fernando António Marques.
    Os anos não importam. Não valem absolutamente nada quando o amor é imenso. Do tamanho dos olhos que ostenta. Os dele. Carregados de pasmo. Suportados por tudo aquilo que construiu. Ao longo dos tempos. E da vida. Em prol da família que fundou. Com suor. Com reverência. E ainda somos cinco. Bem apessoados. E cheios de orgulho. Como o meu corpo treme de tanto admirá-lo. Pelo homem que voa através do respeito. Do caráter trabalhado a pulso.
    O meu pai é um miúdo erudito. Conhece-me como ninguém. Somos a palma e a mão. E torna-se extremamente difícil venerar os que vivem ao nosso lado. Mas possível. É obrigatório.
    Lembro-me de tantas coisas boas. E outras tantas más. De quando vivíamos num curral abandonado. Sem luz. Sem água. Mas sobrevivemos. Chorámos o bastante. Mas recuperámos. E as histórias infantis voltaram a ser as mesmas. Contadas com o coração. Vividas com o olhar. E eu quase a completar sete anos.
    O meu pai nunca censurou as minhas escolhas. Quer pessoais, quer profissionais. O facto de eu ser homossexual não quebrou os laços. Pelo contrário. Fortaleceu-nos. Contra tudo e contra todos. Porque é assim que funciona o amor de um pai. Não julga. Não reprime. Apoia o essencial. Tornou-se um herói de referência. Para mim. Para todos. Principalmente para a minha mãe. A flor maior do seu jardim. A eterna tulipa vermelha. Diz ele. De coração rasgado, a mostrar ao mundo o amor inalterável. O amor perfeito. O amor que representa para quem as oferece uma real declaração de afeto. Uma flor luxuosa. E todos os dias são um só.
    Este texto é para o meu pai. Que trabalha seis dias por semana. Que pensa em mim todos os dias. Que espera ver-me sempre bem. Porque é um homem bom. Para ti, meu pai. Que ainda estás entre nós. Por ti entorno todo o meu respeito. O meu pai. Que calça sapatos de verniz. E veste camisas de flanela aos quadradinhos. E tem mais de cinquenta anos.
    Trabalhar com honradez. Tocar as pessoas com extrema dedicação. Viver com franqueza. A imponente ciência ontológica. Como o Pessoa.
    Filho que sou. Tolerante. Não julgo. Sou adepto dos atos. Preparo sempre o melhor. Atuo como todas as pessoas. Não prejudico ninguém. Afinal, não sei o que é a vida, apenas que é um grande e poderoso pormenor inexplicável. O Pessoa, outra vez a inundar-me de inspiração.
    O meu pai. Que ouve Tony Carreira nos tempos livres. O meu pai. Que nunca precisou de emigrar. Como o Tordo. Mas o meu pai não é músico. É jardineiro. E eu não escrevo assim tão bem como o Tordo mais novo. Fica o testemunho. Este.



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