André Marques, o próprio.

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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Texto integrado na antologia O Mundo da Lua (Lua de Marfim editora)

Há músicas que cantam a nossa vida. Manifestamente, fazes parte da minha letra. Tu, compositora mordaz de simpáticas melodias de amor. Tu. Teresa Salgado. Picante. De preço elevado. Tu, que salgas a minha vida de brandura, de importância.

O sobrado que hoje nos ousa esmagar os obscenos pés, não mais é o destino de um caminho absurdamente estreito do presente que aos poucos absorve no tempo o nome de passado. O sentir de agora, mais não pode ser o sentir de amanhã, e depois.

Apenas tu me fazes dançar. Uma batida qualquer. A do coração, talvez. Apenas tu me fazes cantar-te. Ao ouvido. A um sítio qualquer. Pela nota musical que é o teu corpo bem delineado. Leitoso. Imponente mulher do mundo. E minha. O meu sonho. E o sonho, a seguir ao sexo, é um dos maiores prazeres do homem.

Perdi-te. Sofro o prejuízo. Sinto a tua falta. Tão hoje como ontem. Sinto falta daquelas noites em que beijávamos a lua e saboreávamos à boca cheia o amor pervertido. O nosso atrevimento. Sinto saudades de não te ver partir quando, por razão que desconheço, soubeste da minha traição com a tua melhor amiga. A ladra de homens. Aquela que não consigo dizer o nome. A matreira. Não soubeste aquietar-te. De pernas trémulas, foste-te. Como a sede quando se mata. Tornaste-te violenta. Inquebrável. Mulher de coração partido é raposa velha. Nunca, em momento algum, devemos subestimar a vivacidade de uma mulher.

Arrancaste-me do teu coração com vida própria. Da tua vida congruente. Chorei-te uma noite inteira. Ou duas. Não sei. Chorei-te um dilúvio. Não sou adepto do passado. E agora tenho medo. Medo de te encontrar feliz na cama de um gajo qualquer. Ou de uma gaja, sei lá. De uma pessoa qualquer. Daquelas fieis, que têm a certeza de que o medo é o maior inimigo da estabilidade e o melhor amigo da insegurança. Engraçado, também partilho da mesma exatidão. O que distingue os homens um dos outros é o tamanho da pila, nada mais. No caso das mulheres, enquanto umas nascem com sorte, outras não. Nada a acrescentar.

A vida não mais é a louca caminhada que percorremos desde que nascemos até que morremos. O mais importante, no meio do destino, é apanharmos os atalhos certeiros, a brisa perfeita e reconfortante, e conhecermos as pessoas que podem e devem fazer da nossa existência uma viajem inesquecível.

Como eu te conheço. Ou conhecia. De cabelo ao vento. De saia travada. Quando te penetrava no elevador, ou no provador da tua loja preferida. Onde só o meu dinheiro entrava.

Para o amor nunca há limites. Acredito piamente. Acredito também que tudo tem o seu tempo, menos o amor. Defecando um pouco mais, as pessoas mudam com o tempo. E quando não mudam, adaptam-se. Adaptam-se à solidão, como eu. Narcisista de merda que só vive no mundo da lua, sempre à espera de facilitismos inconsequentes. Sou eu. Só dou valor às coisas quando as perco. Sempre foi assim. Sou humano. A menos que exclua a racionalidade e comece a comportar-me como um animal. Como um boi, por exemplo, quando fores tu a meter-me os cornos.

Reclamo. Mas tu não voltas. Da outra, não recordo mais. Coisas do momento. A hora errada. Aliás, se o mundo inteiro lamentasse aquilo que afirma, tudo não mais seria um lugar vazio e encolerizado. Como um ronco de um Clássico V8.

Neste momento, que já é passado, quero acreditar que a terra que lavras, são os pés descalços com que te vestes. O teu sorriso soa a chama queimada. A tua boca bebe de um tempo que já te pertenceu e que agora não é nada. Vazio. Os anos que foram. Como tu.

Qualquer dia pego-te nos dedos e vamos até Amesterdão. A maior cidade dos países baixos. Conheço-te, admiradora de museus. Saboreamos a cultura, bebericamos um passeio de barco e ainda corremos de bicicleta nas mãos. E recomeçamos. Às vezes é necessário. E quando não é necessário, é urgente. Sem empurrões. Sem quedas. E sabes que tenho queda para reconquistas. Ou então vamos até à ilha Balabac, na República das Filipinas. Ficamos por lá uns tempos. Até que a boca nos doa de tanto nos beijarmos. Mergulhamos nas águas cristalinas. Gosto dos países asiáticos, e das piscinas naturais também. Nos entretantos, abraçamo-nos quando estivermos quase a fazer fronteira com a Malásia, e com a Indonésia, a sul. Parece-me bem. Criamos um mundo só nosso. A vida numa só fotografia envolvida por um retrato único; a nossa existência.

Há pessoas que apenas procuram a paz fictícia. Néscias que são, constroem a pulso personagens conscientes, como se estivessem a prestar provas de malabarismo, tentando absurdamente, passar de forma exímia, algum tipo de credibilidade. Depois há o respeito. Um patamar acima, quase inatingível. A determinante altitude para aqueles que mostram aquilo que são. E não os atores amarelados, os artistas de circo armados, os dançarinos escanzelados. Aqueles que nada acrescentam e afastam por entre os dedos, toda a imponente malvadez alheia.

A capacidade de amar é algo que nunca se perde. Tenho para mim que um dia ainda possamos ser amigos novamente. És grandiosa, do alto do teu mundo da lua. E todos nós temos um mundo da lua só nosso. Acreditamos que ele existe só para nos satisfazer, ou nos deliciar das coisas más, ou boas. És grandiosa. E só uma mulher como tu é capaz de albergar no coração a amizade na sua forma mais pura e autêntica. Perdi-te. Não faz mal. Cá estarei para te encontrar novamente. E como já te disse; da outra, já nem sei o nome.

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