André Marques, o próprio.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Valdiria decide ser prostituta



Valdiria. Sou romântica, suficientemente temperada com açúcar, e apaixonada pelo mundo. Tenho um peito de rugir aos céus, e procuro uma pessoa que saiba aquilo que quer; sem tremuras nem calafrios desmedidos. Traduzo-me numa fonte inesgotável de prazer e cultura. Não sirvo apenas para avelhentar. Sirvo também para conversar. Língua é comigo. Sou ótima.

Valdiria. Luminosidade incomum. Prefere o certo ao incerto, o problema é que não vive com os pés assentes no terreno. Não gosta de dar nem de receber ordens. Teimosa incurável. Assim sou eu. Assim me tornei na Mais Velha Profissão do Mundo. Há mais de 40 anos, e daqui não saio, daqui ninguém me tira.

Possuo a idade de uma rua qualquer de Lisboa. Rua do Carmo, talvez. Rua de São Julião, quem sabe. Rua de São Mamede, um dia. Rua Cidade Bolama, meu Deus. Não tem importância absolutamente nenhuma. Ao vento, escuto cada palavra solta. Das gentes que me rodeia. Ao sabor do frio, observo cada movimento de quem me circunda. Histórias de vida. Como se eu não existisse. Ou não fizesse parte do mundo que me abriga a alma. Que alberga a idiota que nasceu por acaso, sem qualquer missão. Por vezes há quem me confunda com uma pedra da calçada. E não uma pedra para ornamento pessoal. Como Diamante, Rubi, ou Topázio. É o poder das opiniões, da invisibilidade. Estou-me a lixar. Irónico. Nem para polir madeira sirvo. Traste.

Todas as noites caminho pelas zonas mais aclamadas da capital. A cidade fundada por Ulisses. Reza a lenda, portanto. As 7 Colinas acenam-me constantemente. Já me conhecem, sortudas. O Miradouro de Santa Luzia beija-me a testa em sinal de respeito. O Miradouro de São Pedro de Alcântara recebe todas as minhas lamurias, torna-se pequenino quando cai a meus pés. Todas as noites presencio lojas a oferecerem assaltos aos mais diversos bandidos. Todas as noites enxergo taxistas a serem desviados das suas rotas habituais. É nessas alturas que me sinto um pedaço de lixo com classe. Ambulante, mas com classe. Posso ser Puta, mas orgulho-me de ter algum pingo de dignidade. E é tão rara nos dias que correm.

Sou a nota de 200 euros que paga a renda lá de casa. Pelo menos, metade. Sou a água que destila quando, calorosamente, deleito um bom Pénis de um desconhecido qualquer. Sou tudo, quando quero. Como se de repente me transformasse numa daquelas noites frias de Inverno em que a lareira é a nossa única amiga. A amiga perfeita. De todas as horas. De todos os segundos. Quando estamos só, claramente.

Sou a Valdiria que conheceu o Ricardo há mais de trinta anos, no Parque Eduardo VII, em Lisboa, lugar que alberga todo o tipo de servilismo. O Parque, claro. Degradante. Contudo, uma das minhas casas de eleição para trabalhar. Depois de deixar o Parque Florestal de Monsanto, na periferia de Lisboa. Depois de apartar o Conde Redondo, onde durante anos troquei sonhos afortunados com transsexuais oriundos das Avenidas centrais da Capital. Sonhos. E todos os sonhos merecem atenção. Até a de uma galdéria. Sonhos. Aquilo que tenho de melhor. Aquilo que tenho de mais genuíno. Não que o Ricardo seja um mau sonho, pelo contrário, mas os sonhos ensinaram-me a não construir limites. Aprendi a definir as utopias a que estive sempre sujeita. Mas é pela fantasia de uma vida melhor que continuo amarrada a estas ruas, a este barco infernal que mais parece um cacilheiro em hora de ponta. O de Cacilhas, provavelmente. Ou outro qualquer.

O Ricardo canta-me ao ouvido músicas de embalar como se eu fosse um microfone de pé. Age com a delicadeza de um poderoso imbatível, e com ponderada preocupação. Sempre. Embala-me como se eu fosse uma criança revolta. E às vezes sou. E nunca me deixa cair. Que é assim que fazem os grandes homens; protegem aquilo que os faz felizes com unhas e dentes. Por vezes com os braços, mas sempre com o coração. Desliza-me sobre a cama por fazer, onde nos tornamos um só. Como um puzzle que se encaixa na perfeição. E à primeira, sem idas obscuras às soluções. As mortalhas de seda falsa suam à medida que nos entregamos um ao outro. Respiramos freneticamente, como se lá fora o mundo não existisse. O sol não brilha e a chuva nem se atreve a cair.

“Quero voar/Lembrar os teus beijos, poder-te tocar/Quero voar/Levar-te comigo e perdoar…”

Aos poucos, transformo-me no isqueiro do seu cigarro. Aquele que fumamos a rir à gargalhada, sempre que terminamos mais um momento feliz. Os nossos momentos. Aqueles que acontecem inesperadamente quando duas pessoas se amam profundamente. Sinto, diariamente, que vou chegar ao fim da linha com a sensação de que todos os pequenos momentos se tornaram em enormíssimas conquistas pessoais. Como deve ser. As linhas que erguemos todos os dias. São as pequenas ocasiões que nos tornam grandes por dentro, a ponto do coração quase saltar-nos da boca. De tão cheio de amor que se encontra. Como um pneu cheio com a presteza da explosão.

Averiguei o Ricardo em Alfama. Com vista para o Castelo de São Jorge. Conheci-o no bairro mais seguro e antigo da cidade de Lisboa. Alfama. Cantava o fado. Ao desbarato. A alto e bom som. Reconheci de imediato a voz de Amália. As ruas permaneciam silenciosas, com cheiro a flores, e a bafio espirituoso. Achei-o fino. Mas ainda assim aceitável.

“Começou o namorico/E dei-te o meu coração/Em troca de um manjerico…O nosso amor começou/No baile da minha rua/Quando São Pedro chegou/Tu eras meu e eu era tua…”

Apresentei-me de calças de ganga deslavadas. Rotas, não me recordo. E apertadas, curiosamente. Disse-lhe qualquer coisa que já não recordo. Mas não esqueço. A conversa avançou; da vista para o coração. E do coração para a cama. Louca carência. Loucos são os corações que não se entregam quando se apaixonam pela primeira vez. Louca seria eu se não me apaixonasse por um homem como o Ricardo. Por um homem que me descerra o soutien com a magia de um anjo. Ainda lhe falei em preços, fria e descomplexadamente. Disse-me que o preço seria ficar com ele para sempre. E abrimos um garrafa de Amarula. Brindámos à precariedade. Brindámos a um amor que estava a conhecer-se abruptamente. Verbos conjugados no presente e no passado que se confundem com o futuro, ainda por vir. Foi amor à primeira vista. Da parte do Ricardo, felizmente. Ainda estamos juntos, é uma bênção. O Ricardo continua a deixar-me no Parque Eduardo VII. E eu continuo ladeada por largos passeios de calçada portuguesa enquanto o meu amor segue para o escritório. É engenheiro. Deve ganhar bem. O colo do João Silveira, marido da minha cabeleireira, continua a ser um excelente ponto de embarque. As minhas pernas ainda se abrem como há vinte anos para o António Matos, amante da Carla Matos que é diretora de moda. Bem posta na vida, dizem. O Carlos, o Manuel, clientes habituais que me preenchem as medidas como frases feitas em folhas de papel.

Mudou de vida. Por mim. Por ele. Por nós. Sobretudo, por nós. Quem ama, muda sempre algo na sua vida. Ou adapta-se a alguma coisa. Eu também mudei. Teve de ser. Deixei de ter medo de viver sozinha, não perdi a minha independência e ainda consegui angariar alguém fixo que não sirva só para discutir preços, posições e feitiços sexuais. O respeito é uma realidade palpável, apesar de tudo.

Quando há amor, há mudanças. E também há vida própria. E nunca, em caso algum, devemos ceder a pressões infundadas. Todos nós temos vida antes de conhecermos alguém.

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