André Marques, o próprio.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Peço desculpa, mas tenho HIV



Morri. Finei. Todo o brilho incessante que dominava a minha ossatura desaguou. Algures, não sei.

Morri quando te vi. Morri quando te dissipei. Morri de todas as cores, de todas as formas, do dia de todos os segundos. Privei-me de amor. Do teu amor. Adquiri o corpo do Inferno. Lentamente. Os meus olhos assumiram o papel do desassossego, embora cintilantes. Sagazes detentores de verdades.

O caixão a perder de vista, como o céu de sempre; infinito, a cruzar-me as pernas em devaneios admiráveis, capazes de ressurgir o pouco que ainda sobra de mim.

Retiraste-me do teu sangue venoso, como se nada fosse. Como se eu nada fosse. E não era, até o ser. Até me ter tornado na sombra de todos os teus movimentos. Porque é assim que o amor funciona; lado a lado, palma com palma, peito com peito, porta com janela. Dei o teu nome ao coração. Esperneou, esfregou os dedos, tocou os cabelos no chão, voltou a espernear, e morreu. Extinguiu-se de amor por mim. Por ti.

Cresce-me à ideia a tua imagem inicial. A sorrir. Com a brancura de um detergente de roupa qualquer. A escapar o sorriso, não para mim, mas para o mundo. Aquele que erguemos juntos. Deixei-te um rasto de lembranças, como pegadas que vincam a areia do mar, trespassando para o céu as memórias de algo já vivido, presenciado. Como um perfume arrebatador que estremece a noite. Qual sismo de Lisboa de 1755.

Perdi-me de propósito. Perdi-me para me encontrares. Cala-te. Não sabes, ou nunca soubeste. Não importa. Estou morta. E aos mortos já nada se diz. Apenas o silêncio.

Fedo a nada. Estou esfarrapada. Desafetada. Desguarnecida. Completamente nua. Por todos os orifícios. Há uma omissão que me envergonha. A ausência da tua voz. Morri quando decidiste exilar-te da minha vida, do meu coração. Aquele que tem o teu nome.

Por vezes, sinto-me a rebolar os temas de Ana Carolina. Assemelho-me à mistura de ritmos, ao romantismo tragiano que insere à voz grossa que canta. Outras vezes, estimo a bissexualidade.

Entre nós dois/Não cabe mais nenhum segredo/Além do que já combinamos/No vão das coisas que a gente disse/ Não cabe mais sermos somente amigos/E quando eu falo que eu já nem penso/A frase fica pelo avesso/Meio contra-mão/E quando eu finjo que esqueço/Eu não esqueci nada

Assim como também estimo a música de Chico Buarque. Afinal, onde estou não mais é o duro subúrbio da existência humana. O cemitério.

Lá não tem brisa/Não tem verde-azuis/Não tem frescura nem atrevimento/Lá não figura no mapa/No avesso da montanha é labirinto/É contra-senha/É cara a tapa

Tenho saudades. Saudades dos dias de verão. Daqueles em que o sol tinha o tempo de uma vida e o meu amor por ti era imenso. Sinto falta de não te ter contado que tinha o tão indesejado vírus do HIV. Tinha e tenho. Estúpida que sou. Que estava mal e precisava de um ombro amigo. Tenho saudades de não te ver pelas costas quando soubeste da notícia, não por mim, mas pela minha boca. Eu não estava em mim, sabes disso. Mas tu és homem. E como todos os homens, possuis uma certa dificuldade em aceitar alguns factos da vida, assim como tens facilidade em dar um nome qualquer às coisas. Tiveste logo a boa ideia de me chamar doente. Entre outras coisas em alto e bom som. Ainda hoje pensas que um simples beijo de uma pessoa seropositiva pode comprometer a tua vida. O meu beijo. Não te condeno. Seria absurdo fazê-lo. É a vida. O mais correto é aceitá-la. Tal como ela é.

Como sempre fui uma atrasada mental nas tuas mãos invisíveis, estou aqui, novamente pronta para te receber de volta e pensar que nunca partiste. Creio que nunca tiveste jeito para voar. Voar e partir.

Agora já nada importa. Não tenho a voz para te calar. Não tenho a mente para te mudar. Está tudo na tua consciência. Muda de atitude e verás que a felicidade afinal pode ser algo extraordinário. Muda de mentalidade. A mentalidade mudará contigo. Acredita. Não cometas o cessamento. Ajuda o juízo a encontrar um caminho. Não o percas como eu perdi o meu. Da mesma forma. Encerra as noites de loucura e protege-te como ninguém. Sempre perdi mais homens que isqueiros. E olha que nem sequer fumo. Estúpida que sou. Fui mais uma dos teus achados. Mais uma das mulheres que nunca perdeste.

Saudades. Talvez a palavra mais presente na minha vida. A palavra que me faz estar perto de ti, sempre. Sem hora. Sem local marcado. Descreve um turbilhão de sentimentos de perda, falta, distância de amor. Tu.

Morte. O cessamento. O triste misticismo. Morreste-me. Como diz José Luís Peixoto com as palavras na ponta da sabedoria. Morreste-me como as rugas que dia para dia teimam em crescer na minha testa gasta, como mãos cheias de calos de uma vida inteira de trabalho árduo. A indicar o fim.

Qualquer dia abro-te a porta. E depois viajamos para Tuvalu. Fazemos fronteira marítima com o Kiribati e seguimos para as ilhas Cook, não sei fazer o quê. Talvez recomeçar. Às vezes é preciso. E pelo meio do nosso amor, ainda visitamos a Polinésia Francesa. Vais ver como nos vamos divertir. Como pessoas saudáveis que somos. É no que quero acreditar. É no que quero que acredites. Piamente.

Como diz Oscar Wilde “(…) Morte é o fim da vida, e toda a gente teme isso, só a morte é temida pela vida, e as duas refletem-se em cada uma (…)”

Morreste-me uma segunda vez. A primeira, quando te conheci. A segunda, quando te perdi.

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