André Marques, o próprio.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Os velhos também amam



De vez em quando dou por mim a não fazer nenhum. Irónico. Porque é sempre quando não tenho quase nada para dizer, que acontecem as melhores coisas. Mais uma vez, irónico. E o computador é, indiscutivelmente, o grande culpado por estas merdas, como se não houvesse televisão ou outras fontes de informação. Pois bem, aqui vamos.

“Ficámos apaixonados desde o primeiro momento”

No dia 6 de Julho, ao realizar uma alegórica pesquisa de novos temas, deparei-me com uma notícia avançada pelo Correio da Manhã. Confesso aqui, perante todos os leitores, que fiquei bastante enternecido.

É uma realidade evidente que a vida tem coisas absolutamente surpreendentes. E entre as mais votadas, a longevidade do amor e a sua capacidade de se reinventar a cada idade. Ron e Eillen – os protagonistas da notícia – namoram há 87 anos, vejam só! Como tal, estão a comemorar as merecidas bodas de platina. Surpreendente para uma história que começou na infância.

Estes dois seres humanos extraordinários, de 91 anos, nasceram na mesma maternidade, um a seguir ao outro. Os seus pais eram amigos, daí terem frequentado o mesmo estabelecimento hospitalar. Coisas do destino. Fortuna. Sina. Uma combinação de acontecimentos. Destino.

- Sabes quando é que eu percebi que estava completamente apaixonado por ti?

- Não, mas tenho a certeza que me vais dizer.

- O meu coração parou quando te viu pela primeira vez. Foi aí que percebi que a minha vida só fazia sentido, contigo a meu lado.

Desembrulhando um pouco mais esta história que nos serve de exemplo, Ron e Eillen, aos 4 anos decidiram dar o nó em jeito de traquinice no Carnaval, tendo, inclusive, tirado fotos vestidos de noivos. Imaginem! Chega a ser perturbador saber que um acontecimento do passado pode envolver-nos para o resto da vida. Em 1943 oficializaram a data, e agora estão a comemorar 70 anos de vida em comum.

Ron, em entrevista ao jornal Britânico “The Telegraph” afirma que ficaram apaixonados desde o primeiro momento.

“Ficámos apaixonados desde o primeiro momento”

Na minha obscura e curta existência, acredito que na vida não há nada mais interessante e desafiador, que o verdadeiro amor.

O amor ultrapassa todas as barreiras. Quebra mundos feitos de cimento. Quebra nuvens feitas de aço. Quebra tempestades feitas de oceanos revoltos. Amar alguém durante uma vida inteira, é, naturalmente, associar a velhice à idade. Mas é uma idade vivida no coração, na alma, no espírito, e não nas feições, nas limitações, nos trejeitos, ou naquilo que poderia ter sido feito. Nada disso.

É desvendável que a idade não é uma arma indestrutível contra o amor. Mas, de certa forma, acaba por proteger contra o tempo decorrido. É simples, talvez por isso um pouco assustador.

O amor, quando verdadeiramente sentido, tem a obrigatoriedade de ser impulsivo, intenso, apaixonante, sexual, e, indubitavelmente, intemporal. Eterno. Perene. Que não muda, seja por que motivo for.

- Admiro a tua bengala. No fundo, ainda admiro tudo em ti, como da primeira vez. Amo-te, minha mulher.

Há pessoas que julgam o idoso como um louco desmedido, destrambelhado. Que absurdo! O idoso é tudo menos demente ou alienado. O idoso é tudo menos indeciso ou desacreditado. O amor na velhice é tão rico quanto na quadra da vida, com a única diferença de ser vivido com muito mais experiência.

Imaginamos tantas vezes a nossa avozinha na cozinha a preparar uns doces para os netinhos. Imaginamos tantas vezes o nosso avozinho no jardim a descansar na cadeira de balouço, entregue ao jornal, às lembranças e à vida. Visto de outra perspetiva, é difícil imaginarmos uma interação mais íntima entre os dois. Loucos são aqueles que pensam que a vida é eterna. É efémera, isso sim, e se não passarmos por ela, ela acaba por passar por nós sem a vermos.

O tempo não estagna. E muitos VELHOS – com todo o respeito que a palavra merece – deixaram-se balear pelo tempo, quer tenha sido pelos ensinamentos religiosos ou pelas quimeras em relação ao brio sexual.

A vida tem o tempo que lhe quisermos dar. Somos nós que decidimos quando e como iremos morrer. A vontade é soberana, tem vida própria e autoridade suficiente para se impor a qualquer obstáculo que surja pelo caminho.

Velhos são aqueles que não sabem o que é o amor. Tenho dito. Que seja o vento a levar aquilo que não interessa. O resto que se foda.

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