André Marques, o próprio.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Dois homens. Um casamento. O Alentejo como pano de fundo



Uma cama feita de lavado nunca significa um casamento primoroso. Prefiro os lençóis sujos. Emporcalhados. Sórdidos. Calcados de vícios bons. Justificáveis, prazerosos. Nunca fui certinho. Nem tão pouco estudei para isso. Coisas de miúdos. Coisas de educação. A minha vida.

O casamento é uma mera convenção teatral, não há dúvidas. E quem as sentir correr no sangue é porque ainda não desfrutou da belíssima união matrimonial. Ou das belíssimas uniões matrimoniais. Salvo seja.

As pessoas casam-se por diversas razões. Casam para dar visibilidade à relação afetiva. Casam para obter estabilidade económica e social. Casam para criar família. Casam para procriar. Casam para legitimar o relacionamento sexual ou para conseguir aprumos como caráter nacional. E depois há os que casam por amor. Como é o meu caso.

“ O amor gay é o mais puro e verdadeiro, pois muitos homossexuais são capazes de lutar contra a sociedade por alguém “ Edimir Luiz Muller

Estou consorciado com o Augusto há mais de duas décadas. Há tempo suficiente para não ter quaisquer dúvidas em relação àquilo que sinto pela mão que me guia diariamente. Ainda o desejo. Liguei-me ao Augusto em pleno Alentejo, na Ilha do Pessegueiro. Ilha absolutamente encantadora, ao largo de Porto Covo. Casámos de pés assentes no arenito dunar, sobre xistos formados durante a última glaciação. O mar como testemunha. O céu a cobrir um amor genuíno, construído a pulso. Sózinhos. As pegadas que deixámos desapareceram com o tempo. Como seria de esperar. Não importa. Na vida somos sempre a prova de algo. A vida com amor tem sempre mais sabor. E é um sabor que não se esgota nem se desvanece. Perpétua no tempo. Mas nada foi facilitado. A sociedade é cruel. Enche o peito de preconceitos pré-concebidos. Idolatra o pecado alheio como se essa fosse a verdadeira forma de existir. A igreja não aceita, simples casa de banho coberta de fezes. Embora faça questão de manifestar o contrário, não aceita no pensamento. Para mim, o amor é muito mais importante. Mais importante que todas as regras, que todas as mentalidades, que todas as restrições. Houve uma altura que pensei que não valia a pena viver. Mas o Augusto é a prova de que o amor existe, e que foi feito para mim. O amor é mesmo assim; uma forma de ignorarmos tudo aquilo que não acrescenta absolutamente nada à nossa personalidade. À nossa forma de ser. A tudo. A vida ensinou-me a ser feliz.

Tenho as mãos gastas pelo tempo. As rugas entusiasmam-se quando surgem de rompante no meu rosto. De bradar aos céus. Afinal, estou a caminho dos cinquenta. Tudo o que conquistei pertence ao Augusto. Até os calos perdidos entre os dedos, os pêlos algures nas orelhas. A pele enrugada, não de timidez, mas de trabalho árduo. A partilha que deve ser feita quando existe amor. Sempre. E vice-versa. É assim que penso. Carrego na alma todas as certezas. É assim que o vejo todos os dias quando acordo; de olhos arregalados a procurar o beijo molhado. Retribuo. Levantamo-nos e construímos o pequeno-almoço. Porque quando duas pessoas se amam, as coisas deixam de ser feitas no singular. Passam a plural num ápice. E com gosto. Os dedos cheios quando me afaga os cabelos, em noites de Inverno frente à lareira. A ler, e a contar-me histórias do passado. A recordar os nossos fins de tarde na Zambujeira do Mar, com o areal a perder de vista. Depois, já quando a noite repousa, declama ao meu ouvido, levemente, poemas de Sophia de Mello Breyner, ou de Alexandre O´Neill. Por fim, e já com as palavras todas ditas, amamo-nos sem reservas. Entregamo-nos ao chão frio e devoramos o corpo um do outro. Momentos que não são transitórios. Momentos que se repetem e acontecem desde o primeiro dia em que nos conhecemos, no meu Alentejo. No nosso Alentejo. Porque o amor quando surge, emerge do nada. E às vezes é para sempre. Se assim o desejarmos. Como eu desejo ficar para sempre agarrado às minhas origens. Às minhas e às do Augusto.

“ O amor gay é o mais puro e verdadeiro, pois muitos homossexuais são capazes de lutar contra a sociedade por alguém “ Edimir Luiz Muller

Alentejo. Inocente. O meu Alentejo, repetitivo. O meu Alentejo amarelo-torrado e encher-me a alma de vida. O sol abrasador. Hoje e sempre, desde sempre. Os verdes cansados como eu, mas repletos de experiências extraordinárias. Um carro. Dois carros. Três carros a passar, nada mais. O meu Alentejo a puxar ao romantismo e à paixão. As pobres almas de espírito que me perdoem, mas é só no Alentejo que se ama com veracidade, com entrega, com calor. É nos montes caiados de branco que reside a honestidade, a conservação do respeito mútuo. Junto à planície de beijo dado, nas serras, ou junto ao mar a mergulhar os pés das gentes. Gente boa. Sempre que me é permitido, surpreendo o Augusto com uma ida às ribeiras. Caminhamos descalços para sentirmos a força da Natureza, por vezes leviana, outras vezes furiosa. Como só ela sabe ser. Levo-o também a ver os campos, outra vez. Faz parte. Brindamos àquilo que nos faz felizes. Reinventamo-nos. Redescobrimo-nos. É sempre necessária a reinvenção numa relação. Todos os dias.

Outro dia, junto aos prados disse-lhe que o amo como há trinta anos. Notei-lhe a felicidade no rosto.

Qualquer dia vamos a Portalegre para conheceres os meus pais. Finalmente. Enfrentar a família por aqueles que amamos também é uma demonstração de amor. Mais tarde, seguimos em direção ao Museu do relógio, aproveitamos a deixa e paramos o nosso tempo, aquele que nos pertence, e ficamos para sempre presos um ao outro. Como há vinte anos, quando descobri que a felicidade só é completa quando se conhece um grande amor. Como eu te conheci a ti. Como eu te conheço a ti.

Porque não existe nenhuma lei que nos obrigue a ser felizes desta ou daquela forma. Porque todos os amores são válidos. O amor de todos os géneros. Toda a gente quer viver o amor. E isso é o mais importante.

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