André Marques, o próprio.

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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Amor a colheres de açúcar



“Acorda leve, ligeiramente. Como vento fresco que perfura a janela clara, e encharca as vagas paredes do quarto de uma nitidez provocante, branda, quase insondável.

Margarida, catalogada pelo silêncio repentinamente habitual, pousa os olhos, ou a falta deles, na breve almofada infetada de odor masculino que se descobre a seu lado. E uma cama de casal é sempre desigual à alma de uma mulher sozinha e sem desejos veementes concretos. Ausência que sufoca. A falta que lhe faz. Ainda o sente. Ainda o grita dentro de si. Ainda o toca. Ainda se toca. Um dedo. Dois dedos. Quase três, e sem lençóis de seda culpados a esquadrinhar um passado interrompido, penetra-os como flechas dentro da vagina sôfrega, inquietante, como lágrimas que caem sem pedir rosto abaixo. Dois dedos e uma mulher; uma viagem alucinante que a vida oferece à solidão repentina.

Lá fora, do cimo do céu tangível e onde as nuvens são realmente flocos de neve e não permitem a travessura, o tempo não pára. Nunca pára. Assemelha-se a um louco prazeroso, leitoso, feliz por ter a brilhante capacidade de impedir ser desviado por mãos alheias. A mão dos sentimentos. A mão do destino. A mão carregada, não de suor mas de nada. Margarida continua o seu ritual inquebrável. Ridícula por natureza. Os vidros enfeitados que sustentam a cena acompanham a ténue névoa rastejante e ininterrupta. Agora como há cinco minutos.

Os gemidos soam a cabeças humilhadas. A boca que é apenas boca. As pernas que são apenas pernas. Os pêlos curtos que são apenas mensageiros de algo que, supostamente vale a pena. Se falassem, contavam as lamúrias de um fio puxado ao limite e deixado rebentar pela força das palavras, dos atos, do quer que seja. Húmida. De prazer, inunda a cama testemunha de um conhecimento próprio, que a remete para o passado, para uma vida que agora é simplesmente existência. Outra vez. Volta a dormir, leve, ligeiramente, tal como acordou.

Ricardo deixou Margarida há mais de três meses. Margarida está sozinha há mais de uma vida.”



Há quem diga que tudo acaba quando tem de acabar. Nada mais errado. Nada mais provindo dos míseros de Deus. Nada é eterno, exceto a intemporalidade do amor. As pessoas mudam, é uma realidade. E quando não mudam, adaptam-se. E outras vão-se embora. E quando assim é, tudo mais não volta a ter o sabor do antigamente. O colchão que hoje reveste a cama não é o mesmo de ontem. Os adornados que ontem embeleciam o corpo, não são os mesmos de hoje. As ideias que ontem enalteciam a mente, não são as mesmas de hoje. Tudo muda de modo aparente. E quando não muda de verdade, muda na cabeça. Vira-a ao contrário, pendurando-a sobre todas as coisas. E se tudo continuasse igual, seria completamente ridículo.

As ideias dignas de aplausos foram criadas para serem alteradas; uma, duas, três, as vezes que forem imprescindíveis até existir o correto posicionamento das mesmas.

“Ricardo deixou Margarida há mais de três meses.”

Quando os homens mudam de vida, mudam de mulher. Quando os homens mudam de vida, procuram a felicidade noutro estádio, destruindo o princípio de existência das mulheres que os amavam de uma forma tão simples como comer um gelado no inverno. Mas os sonhos são isso mesmo; sonhos.

O que acontece quando saímos do sono e auferimos que a pessoa que mais amamos já não se encontra ao nosso lado? Desde ontem, desde anteontem, desde sempre. Fica o vazio, a surpresa inesperada, a incerteza das atitudes. Ainda ontem ali estava, deitado, despojado de amor carnal. E hoje, tudo é apenas ilusão transformada em solidão contínua, constante. O amor vai, o amor vem. É possível que assim seja. Se descairmos os braços, deixá-los lavar o chão sujo, é incrivelmente possível que seja o fim, não de tudo, mas da vida.

Nada termina de um dia para o outro. Redundância. Quando o assunto é o amor, tudo obedece a uma excessiva abundância de palavras e de repetidas ideias. Mas nunca é cansativo falar de amor. Deve ser falado no singular, no plural, para este ou para aquela em particular. Universal. Desconcertante, não obedecendo a uma ordem lógica de frases. Ninguém é perfeito, muito menos o amor. Afinal, é ele que nos sustenta, e por vezes nos mata, não por fora, mas por dentro.

Por norma, quem termina uma relação tenta sempre indagar o “porquê” da súbita partida. Alguns homens cabeças de trapo preferem não dar parte fraca, não deferindo qualquer tipo de reabilitação. Faz parte da condição humana, e que acaba por ser uma qualidade masculina. Os homens são inseguros, o que faz com que os seus pénis só pensem nas ex-namoradas, nas novas conquistas e no dia a seguir ao que ainda não acabou. Averiguo casos que uma simples mensagem resolve o assunto, como se estivessem a combinar um copo no café da esquina. Ou é assim, ou todos os momentos perdidos, todas as viagens adiadas, os beijos interrompidos, os cansativos almoços de família, podem, inevitavelmente, ter deitado tudo a perder. O que dita o fim do amor é não termos feito tudo aquilo que desejámos no momento certo, por este ou por aquele motivo, não interessa. Acabou e pronto.

Tencionarmos que depois do fim o que desponta é o desconhecido, pode tornar a nossa vida um autêntico morticínio. De todo dever ser encarado dessa forma. Importa ser entendido como um recomeço. A culpa é da outra pessoa? Tudo bem, já passou. Afinal, a culpa é de quem? Não interessa. De facto é irrelevante devorar novamente uma carne já mastigada.

Depois do chão ter desaparecido, o coração quase ter parado, tudo o que parece ter sido apagado pelas lágrimas, merece a hora de erguer a cabeça.

“Ricardo deixou Margarida há mais de três meses.”

Para todas as mulheres que, depois da turbulência, ainda acreditam que é possível aterrar em segurança no aeroporto da estabilidade. Para todas as Margaridas, Joanas, Marias, Sandras, Cátias, enfim. Façam o favor de Abandonar o cabelo de esfregona, o sorriso amarelo, as peles descaídas e os pés de abóbora. Renunciem tudo isso. Cessem o caixote do lixo e despejem lá para dentro toda a insana autoestima. Depois do vazio, o importante é ocupar a mente. Não importa com o quê. Evitar pensar é crucial. Correr para discotecas beijar tudo e todos, até as colunas, está inequivocamente fora de questão. Volverem-se como adolescentes desgaioladas, está, mais uma vez, fora de planos. Altamente fora do padrão emocional estabilizado. Afirmarem que está tudo bem, a viver à grande e à Francesa, como diz o povo, e que sozinhas é que estão bem, por Deus, deixem-se de merdas encapuzadas que não vos levam a lugar algum. Com o tempo, o sorriso regressa à tona, as paisagens voltam a criar o brilho de outrora, os olhos voltam a cintilar, as borboletas renascem no estômago. Imaginem algo de extraordinário que ficou no passado, apesar do padecimento, da história. O falhanço serve para o crescimento pessoal e intelectual. É obrigatório aproveitarem a miséria para poderem seguir em frente e dar mais valor ao que vem de encontro ao vosso corpo. Acreditem que a vossa capacidade de amar é algo que refresca como água gelada e congratula a superioridade. Uma superioridade boa, branca, que não magoa.

No nosso coração cabe o mundo inteiro, pleno de atitudes e sentimentos. O planeta acha-se abundante em almas sedentas de um minuto de felicidade. E há pessoas que são mais felizes num minuto que numa vida inteira. O fulcral é termos a capacidade suficiente para agarrarmos esse minuto. O resto que sefoda.

“Margarida reconstruiu a cabeça. Reaprendeu tudo de novo como se fosse uma criança. Caiu. Tombou. Sevandijou-se, e voltou a andar sobre as pernas que a sua mãe lhe deu quando a pariu. Arrumou o coração, fez-lhe uma limpeza de prioridades e escolheu para lá viver todos aqueles que realmente mais lhe fazem falta. Tudo isto, obviamente, sem esquecer o amor-próprio.”

A Vida é inundada de artimanhas. Apanha todas as pedras que encontrares no caminho. Guarda-as debaixo da cama. Preenche bem o espaço até não mais conseguires esconder as meias no sítio do costume, minha palerma! A vida foi feita para ser vivida, e não existida. Depois, constrói uma casa nova e enche-a de alegria. Personaliza um espaço só teu. Escolhe uma vida plenamente tua e faz dela o teu grande objetivo de vida.

Não devemos, em tempo algum, cometer o crime de amar alguém que nunca teve a capacidade suficiente de retribuir o mesmo amor, a mesma valorização, a mesma vida. Não percamos tempo a enfrentar batalhas ridículas num barco a remos. Sejamos nós mesmos, a nossa felicidade, e a dos nossos familiares e amigos. Viver sem amor é inquietante, mas também há outras coisas inquietantes. Dá que pensar!

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