André Marques, o próprio.

André Marques, o próprio.
André Marques, o próprio.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Do avesso

Deixas escapar o sorriso.
Há uma vida que sobressai dentro de ti.
A minha. Talvez.
Estimo-te. Quero-te por dentro do abraço. Por dentro dos dias. Por dentro das noites. Por dentro de todos os segundos.
Resgato-me sem hesitações. Interpreto o amor. Próximo de ti. Imediato a nós. Amor que tortura de tanta verdade.
Trago-te nos olhos. Distintos. Abafo-te de aspirações. Engulo a saudade. E a certeza de um sentimento não correspondido.
Percorro-te no avesso das coisas. Das banais. Ou não. Torno a mão. E os dedos.
Nasce a indignação em mim. As forças debilitam-se. Sobre o tempo corre a inércia. A improficuidade de te pertencer. A inutilidade de te exigir.
Dor que chega a ser pudor. Consinto. Venero toda a tua existência. Que toca as estrelas. Mas que o coração não declara.



terça-feira, 29 de abril de 2014

O baloiço

O dia apresenta-se ensolarado. Pouco dramático. Um pouco excessivo, confesso. Observo-te de longe. Desamparas de um baloiço. O da vida. Aceitas, humilde que és. E continuas. A oscilar, perante um mundo que te pertence. Assumo a minha ausência. Nunca fui suficiente a demonstrar sentimentos. Talvez um dia sejamos um só. Talvez um dia partilhemos o mesmo balanço. O que existe fora de nós. O embalo necessário. A timidez existente. A minha. E a timidez condiciona o coração alheio, arrebata a solidão. Como diz o Neruda.





terça-feira, 15 de abril de 2014

100 histórias...Conta essa história outra vez

Dia 4 de Maio, Lisboa. Lançamento do livro "100 histórias...Conta essa história outra vez". Não percam de vista o meu "João Bochechas". O poder da amizade. O poder da união. O poder da vida.



Sonha-te em grande

Sustento um jardim de gargalhadas. Espero-te no portão velho e esganiçado. Verde alface, arruinado. Sossego-te rodeado de flores. Para que me conheças. Para que nunca te esqueças. Daquilo que sou. Para ti. Deixa crescer as flores. Como este amor que teima em não diminuir. O meu. Por ti. Faz de nós um ser único. Como fazem os grandes amores. Acima de qualquer flor. Acima de qualquer erva daninha. Mostra-me quem és. Aceita o florido que habita dentro de mim. Dentro do meu corpo. Ou coração. E não te esqueças de fechar a porta da rua. Quando saíres.

sábado, 12 de abril de 2014

O acaso

Um estranho curva a esquina. A do meu corpo. Uma questão de segundos. Rasgo um sorriso. E prossigo. A vida é feita de encontros inesperados. Ganha o sabor do desconhecido. O melhor. O desconforto natural do adeus. Adquire a insensatez de um ângulo desajeitado. E percorre. Sempre da mesma forma. Até ao fim. É a vida. Ou uma parte dela.

sábado, 5 de abril de 2014

O meu pénis

O meu pénis anda entorpecido. Sinto-o um pouco ébrio. Este meu amigo de outras datas, mal o reconheço. Talvez seja pela depressão que estou a atravessar. Como quem cavalga um deserto. De um lado ao outro. Acorda, seu traidor! Ergue-te como um homem, meu sacana! E desperta-me também. Deste silêncio vazio. Levanta o fogo que há em ti, despe-te de preconceitos, e ataca o máximo possível. Em todas as frentes. E em todas as traseiras. As que conseguires angariar. Hoje, amanhã e depois. Só não contes toda a verdade. Não quero que te sintas mal. Não quero que te revejas em mim. Não quero.

terça-feira, 25 de março de 2014

O prazer do silêncio

Admiro o silêncio. Considero-o um bom amigo. Presente. Fiel. Admiro as palavras ditas no calor de um olhar. Confesso-me ao silêncio, e absorvo a paz, o maior fruto. Porque o melhor da vida faz-se entre dois corpos silenciados pelo sentimento do prazer.

Fica só um minuto

Fica quieto. Dá-me só a mão. Fecha os olhos. E sente-me por inteiro. Não estranhes, acredita. Como se fossemos um só. Como se fossemos não! Somos mesmo. Eu e tu. Um agora que é todo o sempre.

Vida de sorrisos

Bebo da deceção. Do desengano. E deixo-me absorver. Engulo a vida miserável. Esta que me acolhe diariamente. Que aos poucos acaba com tudo. Comigo. Contudo, enlevo a ventura. Os segundos. Os minutos. As horas. Porque a felicidade é instantânea. Porque a felicidade prolonga a vida e provoca gargalhadas estúpidas. Como eu admiro sorrisos rasgados! E por um momento, sou feliz uma vida inteira.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Bardoada - O Grupo do Sarrafo



    Mil novecentos e noventa e sete. Um ano comum. De trezentos e sessenta e cinco dias. Cinquenta e duas semanas. Quarta-feira. Quarta-feira. O início. E o fim. Evidente. O ano do funeral de Diana, Princesa de Gales. O ano da morte de Madre Teresa de Calcutá.
    O ano dos Bardoada – O Grupo do Sarrafo. Oriundos da vila de Pinhal Novo, os Bardoada manifestam-se ao mundo através da Percussão, dos fantasiosos Gigantones, e das Gaita-de-Foles. E ainda são quarenta elementos. Os bastantes. Os jovens suficientes, reunidos numa só imaginação rítmica popular. Com os sorrisos todos. E os sonhos. Cada vez mais reais. A saltar-lhes do coração.
Instrumentos como Bombos, Timbalões, e Caixas, completam as atuações com adrenalina, boa energia, e grandes momentos de interação com o público.
    Ao longo dos tempos, o Grupo tem realizado diversas colaborações um pouco por todo o país, nomeadamente em desfiles, corso e espetáculos. Contabilizam cerca de quarenta atuações por ano. Facto curioso. Por outro lado, além de todas as atividades referidas, os Bardoada têm colocado em evidente ascensão alguns projetos paralelos ao percurso artístico, como por exemplo o caso da construção de         Gigantones que oferecem as mãos ao grupo nas mais variadas intervenções públicas. Com o apoio da   Câmara Municipal de Palmela, obviamente. E do Rancho Folclórico Casa do Povo, Pinhal Novo, que cede o espaço para a divulgação de ações de formação de Gaita-de-Foles.
    Os Bardoada a fazer sonhar. Hoje e sempre. Porque o sucesso conquista-se com dedicação, união, e, indubitavelmente, empenho. O futuro é dos que acreditam. E os Bardoada acreditam.




quinta-feira, 6 de março de 2014

Crónica de um bom Pai



    Mil novecentos e sessenta. Ano bissexto. Trezentos e sessenta e seis dias. Cinquenta e duas semanas. Sexta e sábado, respetivamente. O início. E o fim. Facto evidente. O ano mundial dos asilados. O ano de Ayrton Senna. O ano de Renato Russo, vocalista e instituidor da banda de rock Legião Urbana.
Estátuas e cofres/ E paredes pintadas/ Ninguém sabe o que aconteceu/ Ela se jogou da janela do quinto andar/ Nada é fácil de entender.
    O ano de Jorge Quiroga. E do meu pai. Fernando António Marques.
    Os anos não importam. Não valem absolutamente nada quando o amor é imenso. Do tamanho dos olhos que ostenta. Os dele. Carregados de pasmo. Suportados por tudo aquilo que construiu. Ao longo dos tempos. E da vida. Em prol da família que fundou. Com suor. Com reverência. E ainda somos cinco. Bem apessoados. E cheios de orgulho. Como o meu corpo treme de tanto admirá-lo. Pelo homem que voa através do respeito. Do caráter trabalhado a pulso.
    O meu pai é um miúdo erudito. Conhece-me como ninguém. Somos a palma e a mão. E torna-se extremamente difícil venerar os que vivem ao nosso lado. Mas possível. É obrigatório.
    Lembro-me de tantas coisas boas. E outras tantas más. De quando vivíamos num curral abandonado. Sem luz. Sem água. Mas sobrevivemos. Chorámos o bastante. Mas recuperámos. E as histórias infantis voltaram a ser as mesmas. Contadas com o coração. Vividas com o olhar. E eu quase a completar sete anos.
    O meu pai nunca censurou as minhas escolhas. Quer pessoais, quer profissionais. O facto de eu ser homossexual não quebrou os laços. Pelo contrário. Fortaleceu-nos. Contra tudo e contra todos. Porque é assim que funciona o amor de um pai. Não julga. Não reprime. Apoia o essencial. Tornou-se um herói de referência. Para mim. Para todos. Principalmente para a minha mãe. A flor maior do seu jardim. A eterna tulipa vermelha. Diz ele. De coração rasgado, a mostrar ao mundo o amor inalterável. O amor perfeito. O amor que representa para quem as oferece uma real declaração de afeto. Uma flor luxuosa. E todos os dias são um só.
    Este texto é para o meu pai. Que trabalha seis dias por semana. Que pensa em mim todos os dias. Que espera ver-me sempre bem. Porque é um homem bom. Para ti, meu pai. Que ainda estás entre nós. Por ti entorno todo o meu respeito. O meu pai. Que calça sapatos de verniz. E veste camisas de flanela aos quadradinhos. E tem mais de cinquenta anos.
    Trabalhar com honradez. Tocar as pessoas com extrema dedicação. Viver com franqueza. A imponente ciência ontológica. Como o Pessoa.
    Filho que sou. Tolerante. Não julgo. Sou adepto dos atos. Preparo sempre o melhor. Atuo como todas as pessoas. Não prejudico ninguém. Afinal, não sei o que é a vida, apenas que é um grande e poderoso pormenor inexplicável. O Pessoa, outra vez a inundar-me de inspiração.
    O meu pai. Que ouve Tony Carreira nos tempos livres. O meu pai. Que nunca precisou de emigrar. Como o Tordo. Mas o meu pai não é músico. É jardineiro. E eu não escrevo assim tão bem como o Tordo mais novo. Fica o testemunho. Este.



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Desordem

O amor é apego. O amor é lástima. O amor é perdão. Alguns loucos consideram-no a maior de todas as subjugações.
No tempo que se estende, as pessoas dependem demasiado do amor. Constroem na cabeça o medo da ruína, da perda, o que faz com que não consigam entregar-se na totalidade. O que acaba por ser normal. Ou considerado como tal. Existe o trabalho, a carreira, os sonhos, as perspetivas futuras. As mulheres ocupam cada vez mais lugares de topo nas empresas onde trabalham, vivem demasiado preocupadas com o amanhã, e os homens continuam a preferir não mudar. Continuam a idolatrar as loiras. Ou as morenas. As gordas. Ou as magras. As menos inteligentes e as burras. Um sem número de caraterísticas próprias do sexo masculino. Respiram o agora. O aclamado amor “Pragma”. Devido à chuva, ou ao calor, homens e mulheres avaliam cada vez mais todas as possibilidades antes de entrarem numa relação afetiva. E efetiva. O investe, não investe. Um bom pai, ou uma boa mãe para os rebentos. Aquele amor que espera ser gratificado. Aquele amor que espera algo em troca.
O amor não deve ser o início de tudo. E muito menos o fim. Deve fazer-nos pensar. E não sofrer. Deve fazer-nos loucos. Deve-nos agarrar o tempo e ao mesmo tempo esquecê-lo. O amor é uma espécie de ordem que vive da desordem. Da desarrumação. Como uma cama por fazer. Ou uma armadilha por descobrir. O amor deve comandar-nos, mas nunca matar-nos. Apenas de sorrisos.
Acredito que o amor é essencial, e estupidamente precioso. Mas cada vez mais difícil de encontrar. O amor. No entanto, devemos continuar a ser autónomos, independentes. Mesmo dentro de uma relação. Daquelas que julgamos ser para a vida inteira. Não devemos, de forma alguma, acreditar demasiado no outro. Não devemos ser exclusividade de ninguém. O que não significa sentir menos amor pelo outro. Os sonhos continuam a ser sonhos, e a submissão não é um produto aconselhável. O amor obriga-nos a crescer, e a preparar surpresas. Como um ramo de flores ao entardecer. Um jantar à beira mar. Ou uma simples ida ao cinema ver um daqueles filmes lamechas. Tudo acontece com o tempo. E com tempo.
Para amarmos e sermos amados só necessitamos de três ingredientes: reciprocidade, aspiração física, e uma exímia dose de felicidade. Nada mais. E se tudo isto resultar, mais nada deveria valer. Entretanto, deve haver conta, peso e medida. Importar-nos se o outro sente calafrios por outras pessoas. Se, por ventura, idealiza produzir coisas sozinho. Se tem mais idade, ou menos idade. Se tem atenções diferentes. Ou quantas vezes telefona por dia.
Uma coisa é exata, não se pode lutar contra a independência. O amor será sempre autónomo. Não há volta a dar.
Segundo a ideologia Pessoana, o amor obedece ao romantismo tragiano que conduz, ocasionalmente, ao caminho da deceção. Apenas prescrevendo à morte quando, aceite desde o começo, decide embelecer uma nova roupagem de alma.
Na vida real, o amor é um pouco de tudo e um resto de nada.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Pensamentos...

Há palavras cheias que saem de bocas extremamente vazias. Faz parte. A vida também é preenchida por artistas de circo.











quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Peço desculpa, mas tenho HIV


Texto integrado na antologia O Mundo da Lua (Lua de Marfim editora)

Há músicas que cantam a nossa vida. Manifestamente, fazes parte da minha letra. Tu, compositora mordaz de simpáticas melodias de amor. Tu. Teresa Salgado. Picante. De preço elevado. Tu, que salgas a minha vida de brandura, de importância.

O sobrado que hoje nos ousa esmagar os obscenos pés, não mais é o destino de um caminho absurdamente estreito do presente que aos poucos absorve no tempo o nome de passado. O sentir de agora, mais não pode ser o sentir de amanhã, e depois.

Apenas tu me fazes dançar. Uma batida qualquer. A do coração, talvez. Apenas tu me fazes cantar-te. Ao ouvido. A um sítio qualquer. Pela nota musical que é o teu corpo bem delineado. Leitoso. Imponente mulher do mundo. E minha. O meu sonho. E o sonho, a seguir ao sexo, é um dos maiores prazeres do homem.

Perdi-te. Sofro o prejuízo. Sinto a tua falta. Tão hoje como ontem. Sinto falta daquelas noites em que beijávamos a lua e saboreávamos à boca cheia o amor pervertido. O nosso atrevimento. Sinto saudades de não te ver partir quando, por razão que desconheço, soubeste da minha traição com a tua melhor amiga. A ladra de homens. Aquela que não consigo dizer o nome. A matreira. Não soubeste aquietar-te. De pernas trémulas, foste-te. Como a sede quando se mata. Tornaste-te violenta. Inquebrável. Mulher de coração partido é raposa velha. Nunca, em momento algum, devemos subestimar a vivacidade de uma mulher.

Arrancaste-me do teu coração com vida própria. Da tua vida congruente. Chorei-te uma noite inteira. Ou duas. Não sei. Chorei-te um dilúvio. Não sou adepto do passado. E agora tenho medo. Medo de te encontrar feliz na cama de um gajo qualquer. Ou de uma gaja, sei lá. De uma pessoa qualquer. Daquelas fieis, que têm a certeza de que o medo é o maior inimigo da estabilidade e o melhor amigo da insegurança. Engraçado, também partilho da mesma exatidão. O que distingue os homens um dos outros é o tamanho da pila, nada mais. No caso das mulheres, enquanto umas nascem com sorte, outras não. Nada a acrescentar.

A vida não mais é a louca caminhada que percorremos desde que nascemos até que morremos. O mais importante, no meio do destino, é apanharmos os atalhos certeiros, a brisa perfeita e reconfortante, e conhecermos as pessoas que podem e devem fazer da nossa existência uma viajem inesquecível.

Como eu te conheço. Ou conhecia. De cabelo ao vento. De saia travada. Quando te penetrava no elevador, ou no provador da tua loja preferida. Onde só o meu dinheiro entrava.

Para o amor nunca há limites. Acredito piamente. Acredito também que tudo tem o seu tempo, menos o amor. Defecando um pouco mais, as pessoas mudam com o tempo. E quando não mudam, adaptam-se. Adaptam-se à solidão, como eu. Narcisista de merda que só vive no mundo da lua, sempre à espera de facilitismos inconsequentes. Sou eu. Só dou valor às coisas quando as perco. Sempre foi assim. Sou humano. A menos que exclua a racionalidade e comece a comportar-me como um animal. Como um boi, por exemplo, quando fores tu a meter-me os cornos.

Reclamo. Mas tu não voltas. Da outra, não recordo mais. Coisas do momento. A hora errada. Aliás, se o mundo inteiro lamentasse aquilo que afirma, tudo não mais seria um lugar vazio e encolerizado. Como um ronco de um Clássico V8.

Neste momento, que já é passado, quero acreditar que a terra que lavras, são os pés descalços com que te vestes. O teu sorriso soa a chama queimada. A tua boca bebe de um tempo que já te pertenceu e que agora não é nada. Vazio. Os anos que foram. Como tu.

Qualquer dia pego-te nos dedos e vamos até Amesterdão. A maior cidade dos países baixos. Conheço-te, admiradora de museus. Saboreamos a cultura, bebericamos um passeio de barco e ainda corremos de bicicleta nas mãos. E recomeçamos. Às vezes é necessário. E quando não é necessário, é urgente. Sem empurrões. Sem quedas. E sabes que tenho queda para reconquistas. Ou então vamos até à ilha Balabac, na República das Filipinas. Ficamos por lá uns tempos. Até que a boca nos doa de tanto nos beijarmos. Mergulhamos nas águas cristalinas. Gosto dos países asiáticos, e das piscinas naturais também. Nos entretantos, abraçamo-nos quando estivermos quase a fazer fronteira com a Malásia, e com a Indonésia, a sul. Parece-me bem. Criamos um mundo só nosso. A vida numa só fotografia envolvida por um retrato único; a nossa existência.

Há pessoas que apenas procuram a paz fictícia. Néscias que são, constroem a pulso personagens conscientes, como se estivessem a prestar provas de malabarismo, tentando absurdamente, passar de forma exímia, algum tipo de credibilidade. Depois há o respeito. Um patamar acima, quase inatingível. A determinante altitude para aqueles que mostram aquilo que são. E não os atores amarelados, os artistas de circo armados, os dançarinos escanzelados. Aqueles que nada acrescentam e afastam por entre os dedos, toda a imponente malvadez alheia.

A capacidade de amar é algo que nunca se perde. Tenho para mim que um dia ainda possamos ser amigos novamente. És grandiosa, do alto do teu mundo da lua. E todos nós temos um mundo da lua só nosso. Acreditamos que ele existe só para nos satisfazer, ou nos deliciar das coisas más, ou boas. És grandiosa. E só uma mulher como tu é capaz de albergar no coração a amizade na sua forma mais pura e autêntica. Perdi-te. Não faz mal. Cá estarei para te encontrar novamente. E como já te disse; da outra, já nem sei o nome.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

O Porto. Tu e Eu. Ponto final



Redefino-me com o surgimento da raridade. Da novidade. Humano que sou, nada a acrescentar. Mas, à parte de tudo isto, jamais conseguiria imaginar a minha vida sem a Laura. Sem ti. Porque ao contrário do que dizem, a rotina não aniquila a novidade. O encanto.

Faço questão de ser frontal, direto, inconstante. Por vezes, inconveniente. E há grandes diferenças entre a frontalidade e a inconveniência. Aceito. No fundo, sou um grande admirador da novidade e não do hábito. O normal.

Laura. Uma cabeça que vale por duas. Mãos de ouro. Com a sabedoria na ponta língua. Mulher do Norte. Mulher desembaraçada. Mulher gentilmente desbocada, e, deliciosamente asneirenta. A Laura foi bastante seletiva quando decidiu escolher-me para seu marido. Há vinte anos. Não sou bonito, confesso, mas tenho um coração. Um ponto a favor, julgo. Ou determinante, espero. Nunca me dececionou, mulher disciplinada. Sexualmente agressiva e dona de si mesma. A minha mulher. Laura.

O nosso T5 Duplex na Av. da Boavista. Realizada a escritura em 2009, mudámo-nos tranquilamente, quando saímos de Rio Tinto. Zona agradável, mas em nada a ver connosco. Agora estamos bem. Além de estarmos juntos, observamos com prontidão a mais longa avenida Portuense. Quando o sol descai sobre nós, caminhamos até ao Castelo do Queijo, junto ao mar. De pés a descoberto. De braço dado. O fim de tarde como testemunha.

Porto. Grandioso e próspero centro urbano. Cidade majestosa, património da humanidade desde 1996. O Estádio do Dragão estende as mãos aos milhares de amantes do futebol que primam pela lascívia de uma cidade que também é mundialmente conhecida pelo vinho.

O centro histórico. Pela vida noturna desfilam, diariamente, centenas de jovens provindos de todo o país, em busca de momentos de diversão que se tornam fugazes.

O nosso corpo tem peso de Norte. E alma de Portugal. Fascinamos os olhos quando estacionamos a vida no Miradouro da Torre da Câmara Municipal do Porto. Beijamos a vista distinta sobre a Avenida dos Aliados. Tu e os teus cabelos pretos, encaracolados, voando ao sabor do vento. E eu e os meus óculos escuros, e a minha camisa azul aos quadrados. Destaque para o Espelho de Água, situado na placa central e com vista para a urbanização existente ao longo da avenida. Visto da lua é lindíssimo. Como quem observa Álvaro Siza Vieira e Souto Moura. Ao longe, perto do coração, na Praça da Liberdade, de enaltecer o Palácio das Cardosas. Da torre ainda é percetível a parte elevada da cidade de Vila Nova de Gaia, do outro lado do Rio Douro. O El Corte Inglés e a Torre do Monte da Virgem.

Quando nos conhecemos, prometi fazer de ti a mulher mais feliz do Norte. A seguir à minha mãe, claro. Para te conquistar, levei-te ao local mais antigo e típico da cidade do Porto. A Praça da Ribeira. A gelatina de morango do Porto. Para comer às colheradas e chorar por mais. A Praça da Ribeira, ou a Praça do Cubo. Contei-te algumas histórias interessantes. Como dois pombinhos que somos. Aquelas histórias que contamos quando estamos apaixonados. Escutaste com atenção, vi pelos teus olhos ternurentos. Momentos que sabem a amor. E a Douro. Foi na ribeirinha que viveu uma das figuras mais carismáticas da cidade, o aclamado Duque da Ribeira, conhecido por ter salvo várias pessoas de morrer afogadas. Hoje sou eu que não te deixo morrer afogada nos braços de um outro qualquer. Amo-te e pronto. Tudo o resto é pequenino, secundário, quase inexistente. Apenas tu, és grandiosa, esplêndida, mesmo no alto da tua magreza extrema. Amo-te acima de todas as doenças.

Deambulamos pelas ruas estreitas e tortuosas, com vista para Gaia. Com vista para os sorrisos das gentes. As arcadas despóticas. As casas típicas com fachadas divertidas de outras gerações, revestidas de cafés e lojas. A tradução de um ambiente único de história, tradição, animação e beleza.

Para descansarmos os pés, caímos redondos no Café do Cais, instalado no centro histórico da cidade, sobre o Cais da Estiva. Bebemos café de mãos entrelaçadas. Sorrimos. Brindamos à simplicidade, com água. Brindamos àquilo que nos carateriza. A ver-se o Rio Douro.

É verão. Sucedemos os chinelos pela Rua Pena Ventosa. Rua gloriosa, original, que oferece à ribeirinha o lado mercantil da cidade. O amor não se explica. Seria absurdo fazê-lo. Quando digo que te amo, fico com a boca seca de tanta verdade. O nós que construimos juntos, como quem constrói uma carreira numa área qualquer, ou uma vivenda com não sei quantos andares. Firme e hirta.

Em 2009, Minhota que és, apresentei-te a Torre dos Clérigos. Mais uma vez. Que é quase sempre como a primeira vez. E há sempre uma primeira vez, como diz Margarida Rebelo Pinto. Torre dos Clérigos. O ex-libris da cidade do Porto. A torre de Nicolau Nasoni. Coitado, não recebeu um tostão pela obra. A torre de seis andares e setenta e cinco metros de altura. Não tão alta quanto o nosso amor, que se vê das nuvens carregadas de algodão doce. Fãs do Barroco que somos, subimos por uma escada em espiral com 240 graus. Peguei-te ao colo algumas vezes. Gozaste comigo. Agarrei-me à onda e também eu me ri. De ti. De mim. De tudo.

Ainda nessa tarde quente de Agosto, fiz questão de te mostrar de braços abertos a mancha verde de jardins do Palácio de Cristal, voltada para o Rio Douro. Divertimo-nos aos gaiatos nos antigos terrenos agrícolas. Nos entretantos, voltámos ao Douro que mais parecia uma enorme tarte de maçã, deliciosa. Parecia e parece. Rodeados de plantas exóticas e árvores de grande porte, roseirais, um lago com patos e cisnes, e animais diversos.

Perdemo-nos no restaurante O Escondidinho. Perdemo-nos na baixa. Perdemo-nos na Rua de Santa Catarina. Adoramos a decoração rústica e os azulejos trajados à mão do séc XVII. A cozinha é um primor, sustentada pela gastronomia tradicional portuguesa. Degustamos com prazer o belo Bacalhau à Escondidinho, ou a Pescada à Escondinho. Quando aparece o natal, avançamos para a Lagosta Tradicional. Mas, às vezes abusas, minha querida Laura. Obrigas-me a ir àquele restaurante estranho. E lá vou eu ao Góshò, que combina cozinha tradicional com cozinha japonesa. Meu amor, adoras beberricar a tua cerveja de pressão japonesa. Sabes bem que reclamo.

Vivemos em uniformidade. O Porto e o Douro criam um retrato absolutamente único. Deixamo-nos absorver pelas paisagens incríveis, pela cultura que tanto enobrece o sentimento patriotista. Não esquecemos que vários pratos da tradicional cozinha portuguesa tiveram origem na cidade do Porto.

Quando comemorámos dez anos de casados, preparei-te uma surpresa. Uma surpresa inigualável em qualquer outra parte do país, ou do mundo. Juntos, viajámos no Barco Rabelo, ao estender da zona ribeirinha. Admirámos as 6 pontes que cruzam o Rio Douro. Vislumbrámos a ligação entre o Porto e Vila Nova de Gaia. Desvendámos a Praça da Ribeira, a Ponte D. Luís, o Mosteiro da Serra do Pilar, a Ponte do Infante, a Ponte D. Maria Pia, a Ponte de São João e a Ponte do Freixo. Ao regressarmos, apreciámos a Ponte da Arrábida, e a linda terra de pescadores, a Afurada. A vida num só momento. Encabeçada por uma só beleza.

Marchamos pelas ruas do Porto. Fazemos compras no comércio local. A cidade onde tudo acontece. A cidade das Ermelindas, das Filipas, das Sandras, das Manuelas, das Sónias, e afins. De Portugal. Deslizamos por um mundo de fantasia tão real quanto a sua existência.

O espetáculo da vida não é eterno. Não sou de acreditar em coisas eternas. Também não sou de aplausos. Como tal, vivo de momentos inesquecíveis. Faço das lágrimas enormes sorrisos. Como manda a lei. Se algum dia, por ventura, perder a Laura, não faz mal, cá estarei para a encontrar novamente.

União de laços



Moita. Jurisdição pertencente à zona urbana de Lisboa. Situada na margem esquerda do estuário do Tejo, alberga ainda o distrito de Setúbal. Moita. Tradições floridas. Região que oferece bons acessos a todos os confinantes. Como eu acedi gloriosamente. Há 35 anos. Como se fosse hoje, sortuda. Há mais de três majestosas décadas que habito a antiga `Mouta´.

A vida organizou um concurso de decisões. Quem acertasse em todas as respostas, ganhava um novo embalo interior. Participei. Venci sem problemas. E aqui estou, recomeçada. E aqui estou, agradecida por ter contactado o concurso. A vida, por vezes, prenda-nos com este tipo de fogo de artifício. A rápida ascensão. O melhor é apreciá-lo com todos os olhos, pois, há brilharetes que nunca se apagam, e outros, que nunca chegam a acender-se. O mais importante é existir a chama, deixá-la explodir num mar de sensações únicas.

Recordo-me de quando aqui cheguei. Descalcei os pés. Deixei-os caminhar na zona ribeirinha. Simples que sou, pedi-lhes que me levassem à Baixa da Banheira. E depois a Sarilhos Pequenos. Sou bairrista. Afeiçoada ao meu bairro. Gosto das coisas simples da vida; da diafaneidade das pessoas. A transparência que é demasiado caraterística das gentes mais populares. Ainda nessa tarde conheci a paisagem diversa. Bem tratada. O Tejo. Beijei-o da cabeça aos pés. Quase falseei o João. Maldita mulher que não pode ver o mar saltar-lhe para a espinha sem pedir licença. Beijei-o imensas vezes. Ao João, claro. Com a lua a sobrevoar-me o espírito, percorri as zonas verdes. Esparramei-me ao comprido nas salinas, ainda que metaforicamente. Junto à praia fluvial, voltei a descalçar-me, arregacei as calças e deixei-me cair nos braços do meu homem. E amei. Amei sem fim. O areal a perder de vista, como o meu amor pelo João. O presente.

Conta-me histórias do passado. Conta-me através da memória como levava as fragatas carregadas de água para Lisboa. E daí para os navios de grande porte. Ponto de partida; cais da Moita. Quando era catraio, diz-me ele. Ou então nem é verdade, mas não importa. Delicio-me na mesma, como se fosse uma adolescente a descobrir o mundo. E a adorar.

À noite, particularmente, estilo apreciar a íntima luz difusa que cai sobre o adro da capela manuelina. A capelinha encarrapitada sobre o Mar da Palha, lugar que encanta fotógrafos, realizadores de cinema e publicitários. E os Rosarenses.

Uma das coisas que mais aprecio na Moita é a construção metódica de miniaturas de barcos típicos do Tejo nas freguesias do Gaio/Rosário, e de Sarilhos Pequenos. Varinas, Faluas, Fragatas, são incrivelmente refletidas por antigos marítimos, cedo derrubados para a lida aturada nestas embarcações. Eram os chamados “moços”. Promovidos a “camaradas”. E mais tarde a “arraiais”. As três importantes etapas desta calorosa prontidão que se resumia em fazer o arrebatamento de produtos e pessoas entre as margens sul e norte do rio Tejo.

Durante o verão, destilamos na praia do Rosário, repousando nas serenas areias infamadas por conchas das célebres Ostras do Tejo. É importante revelar que a apanha de Ostras constituiu outrora o singular contributo alimentar de inúmeras famílias. O parque de merendas traduzia-se num espaço bastante agradável para petiscos e afins. Em substituição, a Caldeirada à Fragateiro, num dos restaurantes locais.

Amo a minha terra de marítimos e fragateiros. Amo a minha gastronomia unida ao Tejo. Não consigo estar dois dias seguidos sem degustar a Massinha de Caldeirada. Ou o Ensopado de Enguias. Ou o Arroz de Marisco. Ou o Choco Frito. E ainda a Massa de Peixe, ou a Massinha de Sapateira. Sem nunca esquecer os grelhados no carvão. Mas, o mais aprazível é acordar e devorar o meu João. Amá-lo demais. Acordar a pensar nele, com ele. Adormecer a pensar nele, com ele. A lavar os dentes a pensar nele, às vezes sem ele. Fazê-lo feliz. O normal. Há mulheres que não sabem que melhor que o homem, só mesmo o sexo. E adoro compensá-lo com o João.

Em 2010, e nos entretantos de algumas lembranças antigas, facultei-lhe a minha ajuda. A ajuda psicológica. E já é tão pouca. De pé, observei-o. Realizado, conseguiu com a ajuda de muitos, reconstruir um Varino “ Boa Viagem”, no estaleiro naval de Sarilhos Pequenos. Deu gosto vê-lo. E à equipa.

Não quero ficar agarrada às coisas. Quero ficar agarrada aos sonhos. E o meu sonho passa por aqui. Passa por este património embelezado por barcos, onde as cores fortes das tintas elucidam paisagens, idolatram a religião, números, letras e flores. O meu sonho passa por este bem necessário ligado ao rio, às agradáveis zonas verdes, e à fortuna da atividade cultural e recreativa. Onde as pessoas são felizes oferecendo simplicidade à vida.

Acredito que o verdadeiro amor só existe quando a verdade é absoluta, e os sentimentos singulares. O medo, a aventura, o mistério, o desafio, o João. Os meus ingredientes necessários.

Valdiria decide ser prostituta



Valdiria. Sou romântica, suficientemente temperada com açúcar, e apaixonada pelo mundo. Tenho um peito de rugir aos céus, e procuro uma pessoa que saiba aquilo que quer; sem tremuras nem calafrios desmedidos. Traduzo-me numa fonte inesgotável de prazer e cultura. Não sirvo apenas para avelhentar. Sirvo também para conversar. Língua é comigo. Sou ótima.

Valdiria. Luminosidade incomum. Prefere o certo ao incerto, o problema é que não vive com os pés assentes no terreno. Não gosta de dar nem de receber ordens. Teimosa incurável. Assim sou eu. Assim me tornei na Mais Velha Profissão do Mundo. Há mais de 40 anos, e daqui não saio, daqui ninguém me tira.

Possuo a idade de uma rua qualquer de Lisboa. Rua do Carmo, talvez. Rua de São Julião, quem sabe. Rua de São Mamede, um dia. Rua Cidade Bolama, meu Deus. Não tem importância absolutamente nenhuma. Ao vento, escuto cada palavra solta. Das gentes que me rodeia. Ao sabor do frio, observo cada movimento de quem me circunda. Histórias de vida. Como se eu não existisse. Ou não fizesse parte do mundo que me abriga a alma. Que alberga a idiota que nasceu por acaso, sem qualquer missão. Por vezes há quem me confunda com uma pedra da calçada. E não uma pedra para ornamento pessoal. Como Diamante, Rubi, ou Topázio. É o poder das opiniões, da invisibilidade. Estou-me a lixar. Irónico. Nem para polir madeira sirvo. Traste.

Todas as noites caminho pelas zonas mais aclamadas da capital. A cidade fundada por Ulisses. Reza a lenda, portanto. As 7 Colinas acenam-me constantemente. Já me conhecem, sortudas. O Miradouro de Santa Luzia beija-me a testa em sinal de respeito. O Miradouro de São Pedro de Alcântara recebe todas as minhas lamurias, torna-se pequenino quando cai a meus pés. Todas as noites presencio lojas a oferecerem assaltos aos mais diversos bandidos. Todas as noites enxergo taxistas a serem desviados das suas rotas habituais. É nessas alturas que me sinto um pedaço de lixo com classe. Ambulante, mas com classe. Posso ser Puta, mas orgulho-me de ter algum pingo de dignidade. E é tão rara nos dias que correm.

Sou a nota de 200 euros que paga a renda lá de casa. Pelo menos, metade. Sou a água que destila quando, calorosamente, deleito um bom Pénis de um desconhecido qualquer. Sou tudo, quando quero. Como se de repente me transformasse numa daquelas noites frias de Inverno em que a lareira é a nossa única amiga. A amiga perfeita. De todas as horas. De todos os segundos. Quando estamos só, claramente.

Sou a Valdiria que conheceu o Ricardo há mais de trinta anos, no Parque Eduardo VII, em Lisboa, lugar que alberga todo o tipo de servilismo. O Parque, claro. Degradante. Contudo, uma das minhas casas de eleição para trabalhar. Depois de deixar o Parque Florestal de Monsanto, na periferia de Lisboa. Depois de apartar o Conde Redondo, onde durante anos troquei sonhos afortunados com transsexuais oriundos das Avenidas centrais da Capital. Sonhos. E todos os sonhos merecem atenção. Até a de uma galdéria. Sonhos. Aquilo que tenho de melhor. Aquilo que tenho de mais genuíno. Não que o Ricardo seja um mau sonho, pelo contrário, mas os sonhos ensinaram-me a não construir limites. Aprendi a definir as utopias a que estive sempre sujeita. Mas é pela fantasia de uma vida melhor que continuo amarrada a estas ruas, a este barco infernal que mais parece um cacilheiro em hora de ponta. O de Cacilhas, provavelmente. Ou outro qualquer.

O Ricardo canta-me ao ouvido músicas de embalar como se eu fosse um microfone de pé. Age com a delicadeza de um poderoso imbatível, e com ponderada preocupação. Sempre. Embala-me como se eu fosse uma criança revolta. E às vezes sou. E nunca me deixa cair. Que é assim que fazem os grandes homens; protegem aquilo que os faz felizes com unhas e dentes. Por vezes com os braços, mas sempre com o coração. Desliza-me sobre a cama por fazer, onde nos tornamos um só. Como um puzzle que se encaixa na perfeição. E à primeira, sem idas obscuras às soluções. As mortalhas de seda falsa suam à medida que nos entregamos um ao outro. Respiramos freneticamente, como se lá fora o mundo não existisse. O sol não brilha e a chuva nem se atreve a cair.

“Quero voar/Lembrar os teus beijos, poder-te tocar/Quero voar/Levar-te comigo e perdoar…”

Aos poucos, transformo-me no isqueiro do seu cigarro. Aquele que fumamos a rir à gargalhada, sempre que terminamos mais um momento feliz. Os nossos momentos. Aqueles que acontecem inesperadamente quando duas pessoas se amam profundamente. Sinto, diariamente, que vou chegar ao fim da linha com a sensação de que todos os pequenos momentos se tornaram em enormíssimas conquistas pessoais. Como deve ser. As linhas que erguemos todos os dias. São as pequenas ocasiões que nos tornam grandes por dentro, a ponto do coração quase saltar-nos da boca. De tão cheio de amor que se encontra. Como um pneu cheio com a presteza da explosão.

Averiguei o Ricardo em Alfama. Com vista para o Castelo de São Jorge. Conheci-o no bairro mais seguro e antigo da cidade de Lisboa. Alfama. Cantava o fado. Ao desbarato. A alto e bom som. Reconheci de imediato a voz de Amália. As ruas permaneciam silenciosas, com cheiro a flores, e a bafio espirituoso. Achei-o fino. Mas ainda assim aceitável.

“Começou o namorico/E dei-te o meu coração/Em troca de um manjerico…O nosso amor começou/No baile da minha rua/Quando São Pedro chegou/Tu eras meu e eu era tua…”

Apresentei-me de calças de ganga deslavadas. Rotas, não me recordo. E apertadas, curiosamente. Disse-lhe qualquer coisa que já não recordo. Mas não esqueço. A conversa avançou; da vista para o coração. E do coração para a cama. Louca carência. Loucos são os corações que não se entregam quando se apaixonam pela primeira vez. Louca seria eu se não me apaixonasse por um homem como o Ricardo. Por um homem que me descerra o soutien com a magia de um anjo. Ainda lhe falei em preços, fria e descomplexadamente. Disse-me que o preço seria ficar com ele para sempre. E abrimos um garrafa de Amarula. Brindámos à precariedade. Brindámos a um amor que estava a conhecer-se abruptamente. Verbos conjugados no presente e no passado que se confundem com o futuro, ainda por vir. Foi amor à primeira vista. Da parte do Ricardo, felizmente. Ainda estamos juntos, é uma bênção. O Ricardo continua a deixar-me no Parque Eduardo VII. E eu continuo ladeada por largos passeios de calçada portuguesa enquanto o meu amor segue para o escritório. É engenheiro. Deve ganhar bem. O colo do João Silveira, marido da minha cabeleireira, continua a ser um excelente ponto de embarque. As minhas pernas ainda se abrem como há vinte anos para o António Matos, amante da Carla Matos que é diretora de moda. Bem posta na vida, dizem. O Carlos, o Manuel, clientes habituais que me preenchem as medidas como frases feitas em folhas de papel.

Mudou de vida. Por mim. Por ele. Por nós. Sobretudo, por nós. Quem ama, muda sempre algo na sua vida. Ou adapta-se a alguma coisa. Eu também mudei. Teve de ser. Deixei de ter medo de viver sozinha, não perdi a minha independência e ainda consegui angariar alguém fixo que não sirva só para discutir preços, posições e feitiços sexuais. O respeito é uma realidade palpável, apesar de tudo.

Quando há amor, há mudanças. E também há vida própria. E nunca, em caso algum, devemos ceder a pressões infundadas. Todos nós temos vida antes de conhecermos alguém.

As palavras soltas

As palavras secretas que soltamos. A língua gasta de tanto nos beijarmos. As mãos cansadas de tanto nos tocarmos. Como uma música enciumada. O corpo quente de tanto nos entregarmos. Como uma vela que queima impiedosamente. As frases feitas que reproduzimos. Como livros que lemos de um trago só. Tudo aquilo que fazemos, sem propósito algum, que é assim que funcionamos, de forma inconsciente; a forma mais pura de sermos felizes.

Vestido a rigor

Visto-me a rigor. Um fato e basta. Preto. Deixado de memórias. Calço-me para ti. Das janelas, encerro as portas. E recebo-te, de sofá aberto, de manta no chão. Beijo-te os pés. Um dedo. Dois dedos. Preparo-te de comer. Os violinos desabam num choro ensurdecedor. Tristes. E tu, néscia caçadora de roupa lavada. Cantas-me a praga da noite. Aquela que tu sabes. E eu também. Dançamos o amor. Ensaiamos a coreografia da despedida. E acertamos o passo da desilusão. Somos mestres. De algo. De nós, talvez. Da morte. A única certeza que nos resta. Que me resta. A seguir a ti.


Dois homens. Um casamento. O Alentejo como pano de fundo



Uma cama feita de lavado nunca significa um casamento primoroso. Prefiro os lençóis sujos. Emporcalhados. Sórdidos. Calcados de vícios bons. Justificáveis, prazerosos. Nunca fui certinho. Nem tão pouco estudei para isso. Coisas de miúdos. Coisas de educação. A minha vida.

O casamento é uma mera convenção teatral, não há dúvidas. E quem as sentir correr no sangue é porque ainda não desfrutou da belíssima união matrimonial. Ou das belíssimas uniões matrimoniais. Salvo seja.

As pessoas casam-se por diversas razões. Casam para dar visibilidade à relação afetiva. Casam para obter estabilidade económica e social. Casam para criar família. Casam para procriar. Casam para legitimar o relacionamento sexual ou para conseguir aprumos como caráter nacional. E depois há os que casam por amor. Como é o meu caso.

“ O amor gay é o mais puro e verdadeiro, pois muitos homossexuais são capazes de lutar contra a sociedade por alguém “ Edimir Luiz Muller

Estou consorciado com o Augusto há mais de duas décadas. Há tempo suficiente para não ter quaisquer dúvidas em relação àquilo que sinto pela mão que me guia diariamente. Ainda o desejo. Liguei-me ao Augusto em pleno Alentejo, na Ilha do Pessegueiro. Ilha absolutamente encantadora, ao largo de Porto Covo. Casámos de pés assentes no arenito dunar, sobre xistos formados durante a última glaciação. O mar como testemunha. O céu a cobrir um amor genuíno, construído a pulso. Sózinhos. As pegadas que deixámos desapareceram com o tempo. Como seria de esperar. Não importa. Na vida somos sempre a prova de algo. A vida com amor tem sempre mais sabor. E é um sabor que não se esgota nem se desvanece. Perpétua no tempo. Mas nada foi facilitado. A sociedade é cruel. Enche o peito de preconceitos pré-concebidos. Idolatra o pecado alheio como se essa fosse a verdadeira forma de existir. A igreja não aceita, simples casa de banho coberta de fezes. Embora faça questão de manifestar o contrário, não aceita no pensamento. Para mim, o amor é muito mais importante. Mais importante que todas as regras, que todas as mentalidades, que todas as restrições. Houve uma altura que pensei que não valia a pena viver. Mas o Augusto é a prova de que o amor existe, e que foi feito para mim. O amor é mesmo assim; uma forma de ignorarmos tudo aquilo que não acrescenta absolutamente nada à nossa personalidade. À nossa forma de ser. A tudo. A vida ensinou-me a ser feliz.

Tenho as mãos gastas pelo tempo. As rugas entusiasmam-se quando surgem de rompante no meu rosto. De bradar aos céus. Afinal, estou a caminho dos cinquenta. Tudo o que conquistei pertence ao Augusto. Até os calos perdidos entre os dedos, os pêlos algures nas orelhas. A pele enrugada, não de timidez, mas de trabalho árduo. A partilha que deve ser feita quando existe amor. Sempre. E vice-versa. É assim que penso. Carrego na alma todas as certezas. É assim que o vejo todos os dias quando acordo; de olhos arregalados a procurar o beijo molhado. Retribuo. Levantamo-nos e construímos o pequeno-almoço. Porque quando duas pessoas se amam, as coisas deixam de ser feitas no singular. Passam a plural num ápice. E com gosto. Os dedos cheios quando me afaga os cabelos, em noites de Inverno frente à lareira. A ler, e a contar-me histórias do passado. A recordar os nossos fins de tarde na Zambujeira do Mar, com o areal a perder de vista. Depois, já quando a noite repousa, declama ao meu ouvido, levemente, poemas de Sophia de Mello Breyner, ou de Alexandre O´Neill. Por fim, e já com as palavras todas ditas, amamo-nos sem reservas. Entregamo-nos ao chão frio e devoramos o corpo um do outro. Momentos que não são transitórios. Momentos que se repetem e acontecem desde o primeiro dia em que nos conhecemos, no meu Alentejo. No nosso Alentejo. Porque o amor quando surge, emerge do nada. E às vezes é para sempre. Se assim o desejarmos. Como eu desejo ficar para sempre agarrado às minhas origens. Às minhas e às do Augusto.

“ O amor gay é o mais puro e verdadeiro, pois muitos homossexuais são capazes de lutar contra a sociedade por alguém “ Edimir Luiz Muller

Alentejo. Inocente. O meu Alentejo, repetitivo. O meu Alentejo amarelo-torrado e encher-me a alma de vida. O sol abrasador. Hoje e sempre, desde sempre. Os verdes cansados como eu, mas repletos de experiências extraordinárias. Um carro. Dois carros. Três carros a passar, nada mais. O meu Alentejo a puxar ao romantismo e à paixão. As pobres almas de espírito que me perdoem, mas é só no Alentejo que se ama com veracidade, com entrega, com calor. É nos montes caiados de branco que reside a honestidade, a conservação do respeito mútuo. Junto à planície de beijo dado, nas serras, ou junto ao mar a mergulhar os pés das gentes. Gente boa. Sempre que me é permitido, surpreendo o Augusto com uma ida às ribeiras. Caminhamos descalços para sentirmos a força da Natureza, por vezes leviana, outras vezes furiosa. Como só ela sabe ser. Levo-o também a ver os campos, outra vez. Faz parte. Brindamos àquilo que nos faz felizes. Reinventamo-nos. Redescobrimo-nos. É sempre necessária a reinvenção numa relação. Todos os dias.

Outro dia, junto aos prados disse-lhe que o amo como há trinta anos. Notei-lhe a felicidade no rosto.

Qualquer dia vamos a Portalegre para conheceres os meus pais. Finalmente. Enfrentar a família por aqueles que amamos também é uma demonstração de amor. Mais tarde, seguimos em direção ao Museu do relógio, aproveitamos a deixa e paramos o nosso tempo, aquele que nos pertence, e ficamos para sempre presos um ao outro. Como há vinte anos, quando descobri que a felicidade só é completa quando se conhece um grande amor. Como eu te conheci a ti. Como eu te conheço a ti.

Porque não existe nenhuma lei que nos obrigue a ser felizes desta ou daquela forma. Porque todos os amores são válidos. O amor de todos os géneros. Toda a gente quer viver o amor. E isso é o mais importante.

Recordações

E é quando oiço aquele disco que te sinto próximo. Aquela música envolvente que nos marcou para sempre. E por mais que volte a ouvi-la, não consigo esquecer todos os momentos que passámos juntos. Impensável. O sentir de todas as repetições. O voltar atrás que agora só é possível através das memórias inseridas numa balada ensurdecedora capaz de me levar à loucura. Porque também há baladas ruidosas, daquelas que nos remetem ao passado. Mas fico feliz. Toco-te através da letra, e lembro-me de quando sorriamos. Sinto-te através do instrumental, e lembro-me de quando nos beijávamos. A música tem este poder. Um poder soberano sobre as pessoas. Exerce o temperamento do retorno, e embora não te traga de volta, é através dela que te sinto próximo. Mais uma vez. E basta de recordações.



Porque o amor não escolhe géneros

Não ligamos ao preconceito. Homem com homem. Aquilo que somos. Coração com coração. Aquilo que construímos. Com bocas foleiras. Com farpas lançadas. De uma sociedade hipócrita. Sem espelhos. Carregada de telhados de vidro. Tenho-te por inteiro. O que basta. Para ser feliz. Para me sentir no topo. Para te agradecer. O amor também se agradece. E retribuo na mesma moeda. Nunca é tarde para exercer a aceitação. O respeito. Como eu te respeito a ti, meu homem de sonho. E somos perfeitos. Porque no nosso coração não existe a rejeição. O medo. Porque dentro de nós existe a igualdade. Aquela que tentamos transmitir aos outros. Os imparciais alegres que não conseguem arrancar de ninguém a maior gargalhada da vida. A gargalhada do amor verdadeiro.



A leveza do teu corpo

O carinho conquista-se através do respeito. Conquista-se através do apego. Conquista-se através da vontade. És levezinha. Pois o vento nunca te levou. Porque vento nunca encerra as coisas boas. Mas o carinho não basta. É preciso amar-te. Eu sei. Adoro a forma como me respeitas. Como se eu fosse um santo. Eu sei. Adoro a forma como me recebes no teu coração. Não sou presa fácil, sabes disso. Mas aceitas-me. É o mais importante. E voamos. Como dois pássaros livres, mas unidos. Tudo se torna real. Expulso tudo o que sinto por ti, para ti, e tornamo-nos um só. Sem palavras. Sem gestos. Apenas o silêncio. És insubstituível.

Peço desculpa, mas tenho HIV



Morri. Finei. Todo o brilho incessante que dominava a minha ossatura desaguou. Algures, não sei.

Morri quando te vi. Morri quando te dissipei. Morri de todas as cores, de todas as formas, do dia de todos os segundos. Privei-me de amor. Do teu amor. Adquiri o corpo do Inferno. Lentamente. Os meus olhos assumiram o papel do desassossego, embora cintilantes. Sagazes detentores de verdades.

O caixão a perder de vista, como o céu de sempre; infinito, a cruzar-me as pernas em devaneios admiráveis, capazes de ressurgir o pouco que ainda sobra de mim.

Retiraste-me do teu sangue venoso, como se nada fosse. Como se eu nada fosse. E não era, até o ser. Até me ter tornado na sombra de todos os teus movimentos. Porque é assim que o amor funciona; lado a lado, palma com palma, peito com peito, porta com janela. Dei o teu nome ao coração. Esperneou, esfregou os dedos, tocou os cabelos no chão, voltou a espernear, e morreu. Extinguiu-se de amor por mim. Por ti.

Cresce-me à ideia a tua imagem inicial. A sorrir. Com a brancura de um detergente de roupa qualquer. A escapar o sorriso, não para mim, mas para o mundo. Aquele que erguemos juntos. Deixei-te um rasto de lembranças, como pegadas que vincam a areia do mar, trespassando para o céu as memórias de algo já vivido, presenciado. Como um perfume arrebatador que estremece a noite. Qual sismo de Lisboa de 1755.

Perdi-me de propósito. Perdi-me para me encontrares. Cala-te. Não sabes, ou nunca soubeste. Não importa. Estou morta. E aos mortos já nada se diz. Apenas o silêncio.

Fedo a nada. Estou esfarrapada. Desafetada. Desguarnecida. Completamente nua. Por todos os orifícios. Há uma omissão que me envergonha. A ausência da tua voz. Morri quando decidiste exilar-te da minha vida, do meu coração. Aquele que tem o teu nome.

Por vezes, sinto-me a rebolar os temas de Ana Carolina. Assemelho-me à mistura de ritmos, ao romantismo tragiano que insere à voz grossa que canta. Outras vezes, estimo a bissexualidade.

Entre nós dois/Não cabe mais nenhum segredo/Além do que já combinamos/No vão das coisas que a gente disse/ Não cabe mais sermos somente amigos/E quando eu falo que eu já nem penso/A frase fica pelo avesso/Meio contra-mão/E quando eu finjo que esqueço/Eu não esqueci nada

Assim como também estimo a música de Chico Buarque. Afinal, onde estou não mais é o duro subúrbio da existência humana. O cemitério.

Lá não tem brisa/Não tem verde-azuis/Não tem frescura nem atrevimento/Lá não figura no mapa/No avesso da montanha é labirinto/É contra-senha/É cara a tapa

Tenho saudades. Saudades dos dias de verão. Daqueles em que o sol tinha o tempo de uma vida e o meu amor por ti era imenso. Sinto falta de não te ter contado que tinha o tão indesejado vírus do HIV. Tinha e tenho. Estúpida que sou. Que estava mal e precisava de um ombro amigo. Tenho saudades de não te ver pelas costas quando soubeste da notícia, não por mim, mas pela minha boca. Eu não estava em mim, sabes disso. Mas tu és homem. E como todos os homens, possuis uma certa dificuldade em aceitar alguns factos da vida, assim como tens facilidade em dar um nome qualquer às coisas. Tiveste logo a boa ideia de me chamar doente. Entre outras coisas em alto e bom som. Ainda hoje pensas que um simples beijo de uma pessoa seropositiva pode comprometer a tua vida. O meu beijo. Não te condeno. Seria absurdo fazê-lo. É a vida. O mais correto é aceitá-la. Tal como ela é.

Como sempre fui uma atrasada mental nas tuas mãos invisíveis, estou aqui, novamente pronta para te receber de volta e pensar que nunca partiste. Creio que nunca tiveste jeito para voar. Voar e partir.

Agora já nada importa. Não tenho a voz para te calar. Não tenho a mente para te mudar. Está tudo na tua consciência. Muda de atitude e verás que a felicidade afinal pode ser algo extraordinário. Muda de mentalidade. A mentalidade mudará contigo. Acredita. Não cometas o cessamento. Ajuda o juízo a encontrar um caminho. Não o percas como eu perdi o meu. Da mesma forma. Encerra as noites de loucura e protege-te como ninguém. Sempre perdi mais homens que isqueiros. E olha que nem sequer fumo. Estúpida que sou. Fui mais uma dos teus achados. Mais uma das mulheres que nunca perdeste.

Saudades. Talvez a palavra mais presente na minha vida. A palavra que me faz estar perto de ti, sempre. Sem hora. Sem local marcado. Descreve um turbilhão de sentimentos de perda, falta, distância de amor. Tu.

Morte. O cessamento. O triste misticismo. Morreste-me. Como diz José Luís Peixoto com as palavras na ponta da sabedoria. Morreste-me como as rugas que dia para dia teimam em crescer na minha testa gasta, como mãos cheias de calos de uma vida inteira de trabalho árduo. A indicar o fim.

Qualquer dia abro-te a porta. E depois viajamos para Tuvalu. Fazemos fronteira marítima com o Kiribati e seguimos para as ilhas Cook, não sei fazer o quê. Talvez recomeçar. Às vezes é preciso. E pelo meio do nosso amor, ainda visitamos a Polinésia Francesa. Vais ver como nos vamos divertir. Como pessoas saudáveis que somos. É no que quero acreditar. É no que quero que acredites. Piamente.

Como diz Oscar Wilde “(…) Morte é o fim da vida, e toda a gente teme isso, só a morte é temida pela vida, e as duas refletem-se em cada uma (…)”

Morreste-me uma segunda vez. A primeira, quando te conheci. A segunda, quando te perdi.

Os velhos também amam



De vez em quando dou por mim a não fazer nenhum. Irónico. Porque é sempre quando não tenho quase nada para dizer, que acontecem as melhores coisas. Mais uma vez, irónico. E o computador é, indiscutivelmente, o grande culpado por estas merdas, como se não houvesse televisão ou outras fontes de informação. Pois bem, aqui vamos.

“Ficámos apaixonados desde o primeiro momento”

No dia 6 de Julho, ao realizar uma alegórica pesquisa de novos temas, deparei-me com uma notícia avançada pelo Correio da Manhã. Confesso aqui, perante todos os leitores, que fiquei bastante enternecido.

É uma realidade evidente que a vida tem coisas absolutamente surpreendentes. E entre as mais votadas, a longevidade do amor e a sua capacidade de se reinventar a cada idade. Ron e Eillen – os protagonistas da notícia – namoram há 87 anos, vejam só! Como tal, estão a comemorar as merecidas bodas de platina. Surpreendente para uma história que começou na infância.

Estes dois seres humanos extraordinários, de 91 anos, nasceram na mesma maternidade, um a seguir ao outro. Os seus pais eram amigos, daí terem frequentado o mesmo estabelecimento hospitalar. Coisas do destino. Fortuna. Sina. Uma combinação de acontecimentos. Destino.

- Sabes quando é que eu percebi que estava completamente apaixonado por ti?

- Não, mas tenho a certeza que me vais dizer.

- O meu coração parou quando te viu pela primeira vez. Foi aí que percebi que a minha vida só fazia sentido, contigo a meu lado.

Desembrulhando um pouco mais esta história que nos serve de exemplo, Ron e Eillen, aos 4 anos decidiram dar o nó em jeito de traquinice no Carnaval, tendo, inclusive, tirado fotos vestidos de noivos. Imaginem! Chega a ser perturbador saber que um acontecimento do passado pode envolver-nos para o resto da vida. Em 1943 oficializaram a data, e agora estão a comemorar 70 anos de vida em comum.

Ron, em entrevista ao jornal Britânico “The Telegraph” afirma que ficaram apaixonados desde o primeiro momento.

“Ficámos apaixonados desde o primeiro momento”

Na minha obscura e curta existência, acredito que na vida não há nada mais interessante e desafiador, que o verdadeiro amor.

O amor ultrapassa todas as barreiras. Quebra mundos feitos de cimento. Quebra nuvens feitas de aço. Quebra tempestades feitas de oceanos revoltos. Amar alguém durante uma vida inteira, é, naturalmente, associar a velhice à idade. Mas é uma idade vivida no coração, na alma, no espírito, e não nas feições, nas limitações, nos trejeitos, ou naquilo que poderia ter sido feito. Nada disso.

É desvendável que a idade não é uma arma indestrutível contra o amor. Mas, de certa forma, acaba por proteger contra o tempo decorrido. É simples, talvez por isso um pouco assustador.

O amor, quando verdadeiramente sentido, tem a obrigatoriedade de ser impulsivo, intenso, apaixonante, sexual, e, indubitavelmente, intemporal. Eterno. Perene. Que não muda, seja por que motivo for.

- Admiro a tua bengala. No fundo, ainda admiro tudo em ti, como da primeira vez. Amo-te, minha mulher.

Há pessoas que julgam o idoso como um louco desmedido, destrambelhado. Que absurdo! O idoso é tudo menos demente ou alienado. O idoso é tudo menos indeciso ou desacreditado. O amor na velhice é tão rico quanto na quadra da vida, com a única diferença de ser vivido com muito mais experiência.

Imaginamos tantas vezes a nossa avozinha na cozinha a preparar uns doces para os netinhos. Imaginamos tantas vezes o nosso avozinho no jardim a descansar na cadeira de balouço, entregue ao jornal, às lembranças e à vida. Visto de outra perspetiva, é difícil imaginarmos uma interação mais íntima entre os dois. Loucos são aqueles que pensam que a vida é eterna. É efémera, isso sim, e se não passarmos por ela, ela acaba por passar por nós sem a vermos.

O tempo não estagna. E muitos VELHOS – com todo o respeito que a palavra merece – deixaram-se balear pelo tempo, quer tenha sido pelos ensinamentos religiosos ou pelas quimeras em relação ao brio sexual.

A vida tem o tempo que lhe quisermos dar. Somos nós que decidimos quando e como iremos morrer. A vontade é soberana, tem vida própria e autoridade suficiente para se impor a qualquer obstáculo que surja pelo caminho.

Velhos são aqueles que não sabem o que é o amor. Tenho dito. Que seja o vento a levar aquilo que não interessa. O resto que se foda.

A masturbação do amor contrário


”Não há dor maior do que a dor de um amor não correspondido.”Dilsin Alves

“ Adoro o André, mas preciso de um tempo para pensar…”

A sociedade portuguesinha vive inundada de locuções estereotipadas. Como tal, embaralhadas, fazem com que algumas criaturas ineptas não saibam aquilo querem para si, ou para a vida. Se averiguarmos bem este tipo de racionalismo, entendemos que o calor pode mesmo levá-las à interrupção cerebral. Se optarmos por falar em narrações íntimas ou analogias comparadas, a palavra“Indecisão” ganha ainda mais autenticidade. Como se de uma erudição se tratasse.

Indecisão. Perplexidade. Irresolução. Hesitação. A aptidão para a irracionalização no amor passa, miseravelmente, pelas incertezas jesuítas, esperanças ambíguas, e promessas inglórias que não levam a lado algum.

“Adoro o André, mas preciso de um tempo para pensar…”

Maria é a autora da mirabolante frase que tem servido de mote ao longo da presente crónica. Apesar de ser uma mulher que se acha sempre em primeiro lugar, e progenitora de Jesus, se depurarmos um pouco a lógica, inadvertidamente chegamos à básica questão: Se a pessoa não vai à sua vida, é porque gosta ou nutre algum tipo de sentimento pela outra pessoa.Extraordinário. Mas até aqui tudo bem. Então, mas se estima tanto como afirma, porque não decide avançar e respirar a relação de pulmões arejados, limpos, assumindo a verdade e cumplicidade absolutas.

O medo de ficar sem água no oceano fá-la preferir a banheira seca, arranhada e sem culpas aparentes. A outra pessoa, finoriamente, absorve o sentimento desrespeitoso, o uso desmedido, o medo de rebentar a corda e perder a hipótese de conseguir dar-lhe o nó definitivo. O tom de voz, neste tipo de situações, tende a ser elevado. Gritante. Desesperante. Encoleriza a possibilidade severa, dolorosa de um dia alcançar a felicidade.

“Adoro o André, mas preciso de um tempo para pensar…”

Muitas mulheres – aquelas sentimentais –, apenas têm no coração a comissão aflitiva, o fantasma da insegurança, o fraco sangue. A instabilidade, particularmente. Mas não só das mulheres vive o mundo. Há homens que também sentem e comportam-se da mesma forma. Coitados. É verdade que quem ama quer ser amado. E quando não existe gratificação, os miolos dão lugar a outros infortúnios menos próprios.

Querer manter uma ligação afetiva sem encarregá-la é um claro sinal de extrema privação e desconsideração para com a outra criatura de Deus. Para Maria, comportar-se como uma adolescente superficialmente destemida, e que supõe que a vida estagna aos vinte e cinco anos, é perfeitamente normal, assim como sugar o amor alheio para compensar as suas próprias inquietações, indolências e medos. Solidão. Um tema meramente cobarde.

“Adoro o André, mas preciso de um tempo para pensar…”

Homens como o André dissimulam por amor não condigno, e produzem uma dor que médico nenhum pode alijar. Não magoar, não provocar e não acatar a provocação, são intensos compromissos que os homens devem ter em consideração quando decidem amar uma mulher. A grande responsabilidade. Compromisso de amor. O amor-próprio. Mas cuidado, o amor deve levar ao aperfeiçoamento, tornar as pessoas convenientes, corrigidas, sensatas. Devemos piratear os cd´s e não o amor.

Para todos aqueles que não sabem amar ou que simplesmente não estão para aí virados; se não estiverem calibrados para o marmanjo do amor, sejam do tamanho do vosso corpo o suficiente para receberem o cargo de maçaricos, sem impetuosidades e escolhas irrefletidas. Esta simples crónica serve também para os restantes que são perfeitamente capazes de assumir um compromisso da cabeça aos pés, passando pelo coração, obviamente. Façam um favor a vocês mesmos; reneguem a imaturidade. Não tenham medo de ser felizes e ter a cabeça no posicionamento correto.

O medo é o maior inimigo da estabilidade e o melhor amigo da insegurança.

O medo tem a mania de se expressar de formas distintas. Não permitam que ele vos sorva o sangue, seja de que maneira for.

Com diz Charles Chaplin “A vida é maravilhosa se não se tem medo dela”

Quando abri os olhos para o mundo, dentro da minha caixa cerebral começou a desenvolver-se uma espécie de palavra que só ao fim de um tempo de a ter descoberto, é que soube o seu significado. Valores. Foi esta a palavra que entrou a ferros dentro da minha humilde, e por vezes desconcertante, personalidade. Não é fácil articular as coisas que nos elevam interiormente, principalmente quando à nossa volta existe tanta hipocrisia, falta de amor-próprio, e, sobretudo, egoísmo. Ao longo da vida aprendi a respeitar a existência do ser humano, vendo-o como um instrumento indispensável para o exímio funcionamento da sociedade.

Se o egoísmo não existisse, o amor seria tudo menos impossível. Pode parecer confuso, mas a vida é ilógica, e disso, ninguém pode duvidar.

Amor a colheres de açúcar



“Acorda leve, ligeiramente. Como vento fresco que perfura a janela clara, e encharca as vagas paredes do quarto de uma nitidez provocante, branda, quase insondável.

Margarida, catalogada pelo silêncio repentinamente habitual, pousa os olhos, ou a falta deles, na breve almofada infetada de odor masculino que se descobre a seu lado. E uma cama de casal é sempre desigual à alma de uma mulher sozinha e sem desejos veementes concretos. Ausência que sufoca. A falta que lhe faz. Ainda o sente. Ainda o grita dentro de si. Ainda o toca. Ainda se toca. Um dedo. Dois dedos. Quase três, e sem lençóis de seda culpados a esquadrinhar um passado interrompido, penetra-os como flechas dentro da vagina sôfrega, inquietante, como lágrimas que caem sem pedir rosto abaixo. Dois dedos e uma mulher; uma viagem alucinante que a vida oferece à solidão repentina.

Lá fora, do cimo do céu tangível e onde as nuvens são realmente flocos de neve e não permitem a travessura, o tempo não pára. Nunca pára. Assemelha-se a um louco prazeroso, leitoso, feliz por ter a brilhante capacidade de impedir ser desviado por mãos alheias. A mão dos sentimentos. A mão do destino. A mão carregada, não de suor mas de nada. Margarida continua o seu ritual inquebrável. Ridícula por natureza. Os vidros enfeitados que sustentam a cena acompanham a ténue névoa rastejante e ininterrupta. Agora como há cinco minutos.

Os gemidos soam a cabeças humilhadas. A boca que é apenas boca. As pernas que são apenas pernas. Os pêlos curtos que são apenas mensageiros de algo que, supostamente vale a pena. Se falassem, contavam as lamúrias de um fio puxado ao limite e deixado rebentar pela força das palavras, dos atos, do quer que seja. Húmida. De prazer, inunda a cama testemunha de um conhecimento próprio, que a remete para o passado, para uma vida que agora é simplesmente existência. Outra vez. Volta a dormir, leve, ligeiramente, tal como acordou.

Ricardo deixou Margarida há mais de três meses. Margarida está sozinha há mais de uma vida.”



Há quem diga que tudo acaba quando tem de acabar. Nada mais errado. Nada mais provindo dos míseros de Deus. Nada é eterno, exceto a intemporalidade do amor. As pessoas mudam, é uma realidade. E quando não mudam, adaptam-se. E outras vão-se embora. E quando assim é, tudo mais não volta a ter o sabor do antigamente. O colchão que hoje reveste a cama não é o mesmo de ontem. Os adornados que ontem embeleciam o corpo, não são os mesmos de hoje. As ideias que ontem enalteciam a mente, não são as mesmas de hoje. Tudo muda de modo aparente. E quando não muda de verdade, muda na cabeça. Vira-a ao contrário, pendurando-a sobre todas as coisas. E se tudo continuasse igual, seria completamente ridículo.

As ideias dignas de aplausos foram criadas para serem alteradas; uma, duas, três, as vezes que forem imprescindíveis até existir o correto posicionamento das mesmas.

“Ricardo deixou Margarida há mais de três meses.”

Quando os homens mudam de vida, mudam de mulher. Quando os homens mudam de vida, procuram a felicidade noutro estádio, destruindo o princípio de existência das mulheres que os amavam de uma forma tão simples como comer um gelado no inverno. Mas os sonhos são isso mesmo; sonhos.

O que acontece quando saímos do sono e auferimos que a pessoa que mais amamos já não se encontra ao nosso lado? Desde ontem, desde anteontem, desde sempre. Fica o vazio, a surpresa inesperada, a incerteza das atitudes. Ainda ontem ali estava, deitado, despojado de amor carnal. E hoje, tudo é apenas ilusão transformada em solidão contínua, constante. O amor vai, o amor vem. É possível que assim seja. Se descairmos os braços, deixá-los lavar o chão sujo, é incrivelmente possível que seja o fim, não de tudo, mas da vida.

Nada termina de um dia para o outro. Redundância. Quando o assunto é o amor, tudo obedece a uma excessiva abundância de palavras e de repetidas ideias. Mas nunca é cansativo falar de amor. Deve ser falado no singular, no plural, para este ou para aquela em particular. Universal. Desconcertante, não obedecendo a uma ordem lógica de frases. Ninguém é perfeito, muito menos o amor. Afinal, é ele que nos sustenta, e por vezes nos mata, não por fora, mas por dentro.

Por norma, quem termina uma relação tenta sempre indagar o “porquê” da súbita partida. Alguns homens cabeças de trapo preferem não dar parte fraca, não deferindo qualquer tipo de reabilitação. Faz parte da condição humana, e que acaba por ser uma qualidade masculina. Os homens são inseguros, o que faz com que os seus pénis só pensem nas ex-namoradas, nas novas conquistas e no dia a seguir ao que ainda não acabou. Averiguo casos que uma simples mensagem resolve o assunto, como se estivessem a combinar um copo no café da esquina. Ou é assim, ou todos os momentos perdidos, todas as viagens adiadas, os beijos interrompidos, os cansativos almoços de família, podem, inevitavelmente, ter deitado tudo a perder. O que dita o fim do amor é não termos feito tudo aquilo que desejámos no momento certo, por este ou por aquele motivo, não interessa. Acabou e pronto.

Tencionarmos que depois do fim o que desponta é o desconhecido, pode tornar a nossa vida um autêntico morticínio. De todo dever ser encarado dessa forma. Importa ser entendido como um recomeço. A culpa é da outra pessoa? Tudo bem, já passou. Afinal, a culpa é de quem? Não interessa. De facto é irrelevante devorar novamente uma carne já mastigada.

Depois do chão ter desaparecido, o coração quase ter parado, tudo o que parece ter sido apagado pelas lágrimas, merece a hora de erguer a cabeça.

“Ricardo deixou Margarida há mais de três meses.”

Para todas as mulheres que, depois da turbulência, ainda acreditam que é possível aterrar em segurança no aeroporto da estabilidade. Para todas as Margaridas, Joanas, Marias, Sandras, Cátias, enfim. Façam o favor de Abandonar o cabelo de esfregona, o sorriso amarelo, as peles descaídas e os pés de abóbora. Renunciem tudo isso. Cessem o caixote do lixo e despejem lá para dentro toda a insana autoestima. Depois do vazio, o importante é ocupar a mente. Não importa com o quê. Evitar pensar é crucial. Correr para discotecas beijar tudo e todos, até as colunas, está inequivocamente fora de questão. Volverem-se como adolescentes desgaioladas, está, mais uma vez, fora de planos. Altamente fora do padrão emocional estabilizado. Afirmarem que está tudo bem, a viver à grande e à Francesa, como diz o povo, e que sozinhas é que estão bem, por Deus, deixem-se de merdas encapuzadas que não vos levam a lugar algum. Com o tempo, o sorriso regressa à tona, as paisagens voltam a criar o brilho de outrora, os olhos voltam a cintilar, as borboletas renascem no estômago. Imaginem algo de extraordinário que ficou no passado, apesar do padecimento, da história. O falhanço serve para o crescimento pessoal e intelectual. É obrigatório aproveitarem a miséria para poderem seguir em frente e dar mais valor ao que vem de encontro ao vosso corpo. Acreditem que a vossa capacidade de amar é algo que refresca como água gelada e congratula a superioridade. Uma superioridade boa, branca, que não magoa.

No nosso coração cabe o mundo inteiro, pleno de atitudes e sentimentos. O planeta acha-se abundante em almas sedentas de um minuto de felicidade. E há pessoas que são mais felizes num minuto que numa vida inteira. O fulcral é termos a capacidade suficiente para agarrarmos esse minuto. O resto que sefoda.

“Margarida reconstruiu a cabeça. Reaprendeu tudo de novo como se fosse uma criança. Caiu. Tombou. Sevandijou-se, e voltou a andar sobre as pernas que a sua mãe lhe deu quando a pariu. Arrumou o coração, fez-lhe uma limpeza de prioridades e escolheu para lá viver todos aqueles que realmente mais lhe fazem falta. Tudo isto, obviamente, sem esquecer o amor-próprio.”

A Vida é inundada de artimanhas. Apanha todas as pedras que encontrares no caminho. Guarda-as debaixo da cama. Preenche bem o espaço até não mais conseguires esconder as meias no sítio do costume, minha palerma! A vida foi feita para ser vivida, e não existida. Depois, constrói uma casa nova e enche-a de alegria. Personaliza um espaço só teu. Escolhe uma vida plenamente tua e faz dela o teu grande objetivo de vida.

Não devemos, em tempo algum, cometer o crime de amar alguém que nunca teve a capacidade suficiente de retribuir o mesmo amor, a mesma valorização, a mesma vida. Não percamos tempo a enfrentar batalhas ridículas num barco a remos. Sejamos nós mesmos, a nossa felicidade, e a dos nossos familiares e amigos. Viver sem amor é inquietante, mas também há outras coisas inquietantes. Dá que pensar!

As pessoas que sonhavam felicidade.




Estava eu deleitado sobre a minha obscura e apreciadora papeleira, quando, depois de uma indagação aleatória no computador, talvez por mera escorregadela, examino uma série de acontecimentos relacionados com a atual situação do país. Ou do que resta dele. De repente, o meu órgão do aparelho digestivo, aquele em forma de saquinho em que se carrega o dinheiro, onde o bolo alimentar é digerido, situado abaixo do diafragma, ou seja, estômago, começou incredulamente num reboliço formidável, repugnante, e senti mesmo o infortúnio infiltrar-se no meu pequeno mas genuíno cérebro. Então, resistente, pensei “ Por que não injetar uma boa dose de felicidade, ou de exemplos dela, na estapafúrdia crise económica e social atual? “ Let´s Go.

Segundo o PSD (Partido Social Democrata), alegremente chefiado por Pedro Passos Coelho, o país que um dia teve orgulho em falar português atravessa uma situação de crise económica e social que, dia após dia tende a ficar semelhante ao sol de verão, inexistente. Empiorado.

Defecando ainda mais um pouco sobre este assunto que me rouba o sorriso dos bolsos, ainda que metaforicamente, os crédulos anões estereotipados e mestres do marketing corroboram que é iminente responder com energia, ações contíguas atreladas a soluções excecionais, e, de preferência com visão para o futuro. Energia, apenas se for a necessária para chegar ao final do mês de algibeiras ilusionistas e mesmo assim, acreditar e gritar em bom português que o amanhã será mais prometedor a todos os níveis, se é que eles ainda existem ou possam ter uma definição concreta. Avançando para as ações, na opinião mais medíocre do meu ser afundo que o mais sensato seria a retribuição na mesma moeda aos capitães sem gancho as semelhantes toneladas de impostos e taxas que penalizam este e aquele zé-ninguém, como eu. Garantindo as soluções, como defraudado lusitano carrego nas costas a decisão da emigração, e o mais rápido possível. A visão para o futuro traduz-se em noites em que o sono oferece à inconsciência a capacidade para transcender a realidade palpável, assemelhando-se à energia descrita nesta sinalização de mudança de linha. Do que estes senhores se esquecem é que para se fazer um bolo não são necessários apenas ovos e duas mãos, que, aliás, como todo o trabalho exige, é distinto acreditar, obter perseverança e sobretudo uma exímia dose estimável de boa vontade e felicidade. Duas conjugações aparentemente impossíveis nos dias que correm, mais propriamente às 15h do dia 24 de Junho de 2013.

Futuro. Porvir. Vindouros. A posterioridade – portuguesa -, só é possível ser erguida se a felicidade estiver estampada no rosto das gentes com caráter, tendo como ponto de partida o coração e devidamente bombeada para todo o corpo através das contrações das suas paredes musculares.

A felicidade não passa apenas pela realização pessoal. Ultrapassa, indubitavelmente, o reconhecimento esforçoso do trabalho, de que vale a pena viver apesar de todas as intempéries. Viver com consciência e com a analogia correta, embora os passos de coelho sejam cada vez mais audíveis, é deixar de ser imole das suas próprias questões. É ser capaz de construir castelos no ar com a sabedoria de não domesticar forças para os desmoronar com um simples sopro. Ser feliz não é agradecer a Deus pela sua existência, mas deslumbrar-se pelo facto de ter nas mãos o papel fulcral da sua própria história. Ser feliz é ter o amor suficiente para poder enaltecer o coração de outra pessoa sem exigências, transtornos, independentemente da raça, etnia, religião, orientação sexual, ou outra merda qualquer. Ser feliz é, inclusive, transmitir sentimentos igualmente felizes, sempre, como se de uma obrigação se tratasse. Ser feliz é ter a coragem de mudar a vida de alguém. Não necessariamente a vida de um país. E quando tudo falha, o caminho mais correto é seguir as pisadas de alguém que possua todas as características traçadas neste parágrafo decisivo.

Na minha vasta lista cerebral de personalidades influentes, vejo-me na obrigação de referir Jorge Pina.

Jorge Pina é incrivelmente o exemplo a seguir e o homem do momento. A sua participação no programa Splash! Celebridades, transmitido todos os domingos pela SIC trouxe-nos a todos uma lufada de ar fresco. É uma das referências do Pugilismo nacional e aos 35 anos está cabalmente cego. Outro dia, na pastelaria da moda, encontrei três sexagenárias que falavam alegremente sobre Jorge. Uma delas, a mais esguia, cabelo bem penteado de quem já não tem nada para fazer a não ser ir ao cabeleireiro seis vezes por semana, dizia “ Ele é encantador “. As três sorriram ao mesmo tempo que tomavam o pequeno-almoço. Torradas e leite, nem mais. Outra, mais acabadita e com sinais de exuberantes pensamentos filosóficos, acrescentava “ Ele mostra a missão para a qual nascemos. Só vejo o programa por causa dele, até porque não desgosto da Júlia “. A terceira silenciou a conversa inteira, apenas acenava em concordância. Fiquei em alto grau de Contentamento. Debaixo do fraco calor matinal, fraquinho, senti que as pessoas se identificam com quem realmente importa e que de certa forma eu também me absorvo nelas, como se estivéssemos todos aconchegados no mesmo corpo e agíssemos como se fossemos uma família. É reconfortante. É realmente importante que estas mensagens sejam transmitidas como se fossem vírus. Se todas as doenças transmissíveis fossem desta dimensão, com certeza viveríamos todos de uma forma mais tranquila, melhor e sem medicação acrescida. Seria uma doença CRÓNICA formidável.

Continuando, e para os que ainda não sabem – acredito que poucos -, Jorge Pina perdeu a visão num treino normal. Mas não foi por esse incidente que desistiu da vida e, atualmente é um maratonista de excelência. É um ser incrivelmente entusiasmante, legítimo, que nos ensina que é na transparência da simplicidade que reside o amor e entrega verdadeiros. Um exemplo de vida. A vida para aqueles que apenas a sustenta, provinda de outro corpo.

Pode o país desabar, dos céus caírem rochas de culpa, o sol visitar a terra obedece a uma enorme probabilidade, ou mesmo o Passos terminar deitado num banco de jardim plantado à beira mar a ser devorado por grãos de areia revoltos, mas há algo que nunca devemos esquecer nem trespassar. Questionados? Procurem dentro de vós. Deixemo-nos de merdas insignificantes e sem cheiro. Procuremos acreditar que viver da brisa pode não ser assim tão ruim. Procuremos acreditar que dormir na banheira pode não ser assim tão horrível. Procuremos acreditar que caminhar sobre pregos até pode ser uma experiência agradável. Lixemo-nos para a merda do país em que vivemos. Ser feliz é amar o próximo depois de nos amarmos a nós mesmos. Acordar um dia de cada vez é tão simples como ler esta crónica.

Termino com uma frase que pode mudar as nossas vidas “ Agora vejo mais do que quando tinha os dois olhos…vejo com o coração porque os olhos por vezes enganam “. Esta frase é tão simples como ser de Jorge Pina. Em tempo de materialismo a palavra de ordem é SIMPLICIDADE. Ser feliz não custa, basta saber dar-lhe a definição correta. Outra coisa importante é pensarmos que um dia a crise se esfume. Eu tenho as certezas todas no sítio, sabem porquê? Porque tudo tem o seu tempo, menos o amor. Agora sim, terminei.






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